17/01/2026
Afeto negativo como criador de vínculo.
A tira mostra pessoas numa fila de banco que, inicialmente, se percebem como estranhas e
distantes, mas acabam se unindo pelo mau humor e pela queixa comum. O título, ao riscar “amor” e substituí-lo por “mau humor”, já sugere ironicamente que não é o afeto que cria laço ali, mas a irritação compartilhada.
À luz da Psicanálise, podemos pensar no mecanismo de projeção e de identificação: cada sujeito, tomado por sua frustração e agressividade, encontra no outro um espelho de seu próprio descontentamento. Aquilo que inicialmente é visto como “esquisito” ou incômodo passa a ser reconhecido como semelhante quando surge um inimigo comum (o banco, o atendimento, a fila). A agressividade, que poderia permanecer isolando cada um em seu narcisismo, é deslocada para fora e cria um vínculo: o vínculo da queixa.
Freud já mostrava que os grupos se formam não apenas por amor, mas também por ódio compartilhado. Aqui, o laço social se constrói pela comunidade de afetos negativos: todos se identificam na posição de vítimas, reforçando um “nós” contra um “eles”. O mau humor funciona como cola libidinal, organizando o mal-estar e dando sentido à experiência.
Assim, a tira ilustra de forma bem-humorada como, muitas vezes, o que une as pessoas não é o amor maduro, mas a partilha de frustrações e a necessidade inconsciente de encontrar no outro alguém que confirme: “não é só comigo que isso acontece”.