14/11/2025
Eu não uso perfume. Também não uso hidratante com cheiro, tampouco desodorante com cheiro. Tudo sem perfume. Mas amo um sabonete bem perfumado. Daqueles que deixam uma marquinha de presença sutil e gostosa por onde passam.
Acho que é porque o meu olfato “primitivo” é o meu sentido mais pronunciado. Sinto cheiro de tudo à distância. De gás escapando, de feijão queimado, de incenso litúrgico chegando no carvão, de pãozinho torrado...
A questão é que, pra mim, cheiro é memória. Uma lembrança se liga muito facilmente a um cheiro, seja de comida, de flor, de abraço, de vivido.
Há alguns anos uma amiga muito querida me disse que gostava de comprar sabonetes especiais para levar em suas viagens, pra juntar aquele perfume ao conjunto de experiências daquele momento. Adotei esse costume e hoje coleciono aromas de viagens no meu repertório.
Outro hábito que entrou na minha vida é de ter sempre velas aromáticas, porque cheiro bom em casa tem o seu valor, e como tem! As velas pouco a pouco foram entrado no esquema dos sabonetes: colam-se memórias vividas – jantares, brindes, lágrimas, abraços.
Acabo de me dar conta de que as velas cheiram também a calor, o mesmo que está contido em todos os itens que a minha memória associou. Não é à toa que gosto tanto de velas. Ahhh e de banho morno (com sabonete especial).
Cheiro – calor – sabor – experiências – memórias.
Meu repertório passa por aí e é só meu. Porque meu olfato é poderoso, porque meus afetos me ensinaram coisas especiais, porque vivi e vivo experiências singulares como cada um de nós.
Como então se pode supor que seja possível treinar um repertório verbal desconectado de vivido? Eis a questão!