LucieneBenevides

LucieneBenevides Psicóloga e Psicanalista

18/12/2025

A narrativa da violência de gênero na imprensa costuma deslocar o foco: expõe a vítima, suas escolhas, sua vida, seus vínculos, enquanto dilui ou silencia a responsabilidade do agressor. Não é casual que manchetes recorram a fórmulas como “crime passional”, “briga de casal”, “ciúme” ou “tragédia anunciada”. Esses termos não apenas suavizam a violência, como a retiram do campo da decisão e da responsabilidade. O agressor deixa de ser sujeito de um ato para se tornar efeito de uma emoção, de uma circunstância, de um “excesso” afetivo. A violência, assim, é psicologizada ou romantizada, em vez de politicamente nomeada.

Quando se pergunta por que a mulher ficou, por onde andava ou com quem se relacionava, constrói-se uma pedagogia da culpa e da vigilância feminina. O agressor, por sua vez, torna-se difuso, quase sem rosto e sem verbo.

Nomear importa. Dizer “um homem agrediu”, “um homem matou” recoloca a violência em seu eixo ético e político: houve um agente, uma escolha, um ato. A forma de narrar não é neutra, ela produz sentido e pode, ou não, romper com a lógica que sustenta a violência de gênero.

16/12/2025

Existe um tipo de cansaço que não aparece nas fotos.
Um cansaço que não é físico, mas psíquico.
E que recai, quase sempre, sobre aquele parceiro que sustenta a relação por dentro.
É a pessoa que antecipa problemas, que segura os afetos, que organiza a rotina, que mantém a casa e o vínculo funcionando…
Enquanto tenta, silenciosamente, impedir que tudo desmorone.
O que ninguém vê é o preço disso.
Porque quando alguém vira o eixo emocional da relação, deixa de existir como sujeito e passa a existir como função.
De companheiro, vira gestor.
De amante, vira organizador.
De parceiro, vira cuidador.
E esse lugar tem um custo altíssimo:
ele vai drenando o desejo, corroendo a leveza, transformando o amor em responsabilidade.
Com o tempo, a pessoa sobrecarregada vai deixando de pedir, de reclamar, de se colocar.
Não por maturidade, mas por exaustão.
É assim que a relação não quebra — ela esvazia.
O vínculo continua, mas f**a anêmico.
É o de sentir que você não pode ser você.
Que a sua própria necessidade nunca cabe.
Que o seu afeto virou logística.
E nenhuma relação sobrevive onde um ama cuidando…
E o outro apenas se acomoda para ser cuidado.
O cansaço emocional é um aviso.
Não de que falta amor — mas de que falta reciprocidade.”

16/12/2025

“Não se curem além da conta.”

Nise da Silveira não falava contra o cuidado, mas contra a domesticação da alma. Há uma forma de “cura” que apaga o conflito, silencia a imaginação e produz sujeitos excessivamente ajustados, funcionais, porém empobrecidos de desejo.

Talvez o verdadeiro adoecimento psíquico esteja justamente na tentativa de viver sem fissuras, sem estranhamento, sem risco. Porque um pouco de desajuste não nos adoece, nos humaniza.

Pessoas muito “ajuizadas” são aquelas que já se renderam completamente à ordem, à previsibilidade, ao controle e, portanto, à esterilidade subjetiva.

É pela imaginação que o sujeito simboliza a dor, cria narrativas, produz imagens para aquilo que não cabe na razão.

Negar a imaginação é empobrecer a experiência humana.

11/12/2025

A premissa da igualdade de direitos entre homens e mulheres ainda esbarra numa incongruência estrutural: a cultura segue depositando sobre a mulher uma sobrecarga invisível, naturalizada e silenciosa.

Ela é convocada a ser âncora afetiva, gestora emocional da casa, cuidadora de todos e, ao mesmo tempo, corresponsável pelo custeio financeiro da família.

Enquanto isso, a sociedade segue operando como se essa dupla exigência fosse “natural”, como se o afeto, o tempo e o corpo feminino fossem recursos infinitos.

Chamamos de igualdade o que, na prática, continua sendo uma divisão desigual de trabalho, energia e sacrifício.

O paradoxo é claro: exige-se da mulher uma performance total, mas oferece-se a ela apenas o reconhecimento parcial. Não há equidade possível enquanto a responsabilidade doméstica e emocional permanecer invisível e enquanto a sobrecarga feminina for tratada como destino, e não como construção cultural que precisa ser revista.

09/12/2025

Contardo Calligaris (1948–2021) foi um dos psicanalistas mais relevantes do Brasil contemporâneo. Como pensador, instigou reflexões importantes no campo social, dentre elas o lugar histórico do feminino.

Para Calligaris, a misoginia não é apenas desprezo — é uma forma de controle psíquico:
• Desqualif**a a mulher para desarmar seu poder simbólico.
• Ridiculariza para torná-la pequena.
• Regula sua sexualidade para não ser ameaçado.
• A acusa de “perigosa” para justif**ar punições.

No fundo, trata-se de controle pela manutenção do poder patriarcal, ao custo de muita violência e subjugação.

07/12/2025

⚠️ O papel devastador do silêncio nas relações

A violência psicológica nem sempre grita. Muitas vezes, ela se exerce no subtexto, na retirada, no que não é dito.

1. O silêncio como mecanismo de punição
Quando o silêncio não é pausa, mas estratégia, ele se torna uma forma sofisticada de agressão. É o “tratamento de gelo”, que comunica: “Você só existe quando eu permito.”
Por trás dessa ferramenta há três funções psíquicas:
• Controle: ao retirar a palavra, retira-se o chão simbólico do outro.
• Punição: o silêncio cria incerteza, culpa e ansiedade.
• Superioridade narcísica: quem silencia assume poder e suspende o vínculo unilateralmente.

2. A comunicação que humilha
Não é só o silêncio, mas o que ele signif**a:
• evitar diálogo,
• interromper conversas,
• desaparecer sem explicação,
• negar respostas,
• recusar-se a nomear conflitos.
Essa recusa não busca paz — busca domínio.

3. A desestabilização emocional
A violência psicológica age lentamente. Seus sinais incluem duvidar da própria percepção (“Será que exagerei?”) e viver em tensão, esperando a próxima onda de silêncio.

4. Por que essa violência é tão nociva
Psicologicamente, organizamos a realidade pela linguagem. Quando o vínculo é rompido pela ausência de palavra, instala-se um vazio que desorienta.
O silêncio como arma produz:
• colapso simbólico,
• ansiedade de abandono,
• culpabilização,
• autoanulação — a pessoa reduz suas necessidades para evitar novos silenciamentos.

5. O que f**a por trás dessa dinâmica
O silenciamento revela imaturidade emocional, dificuldade de elaborar conflitos, necessidade de controle e fragilidade narcísica.
Quem usa o silêncio como arma não evita conflito — evita responsabilidade.

02/12/2025
17/11/2025

Por que é tão difícil estabelecer limites nas relações?
Porque, em algum nível, temos medo de perder o amor.
O “não” que poderíamos dizer soa como ameaça de abandono.
Então cedemos, silenciamos, suportamos — acreditando que, se formos compreensivos o bastante, o outro f**ará.
Então, o que chamamos de compreensão, muitas vezes, é medo disfarçado.
Medo de decepcionar, de ser visto como egoísta, de não corresponder à imagem que o outro faz de nós.
E assim, abrimos mão de nós mesmos em nome de uma harmonia que não existe.
Só que toda relação que exige a renúncia do próprio limite é uma relação que cobra caro:
a conta vem em forma de exaustão, ressentimento e culpa.
Estabelecer limites não é afastar o outro —
é sustentar a presença sem se perder nela.
É dizer: “eu te amo, mas eu também existo”.
Porque amar sem se anular é a única forma de permanecer inteiro diante do outro.

08/11/2025

A proximidade física pode até oferecer companhia, mas não garante o sentido de estar com alguém.

Quantos não se sentem sós mesmo ao lado de quem amam?

O que sustenta o encontro é algo mais sutil: a palavra que circula, o gesto que se renova, a atenção que se instaura como cuidado.

O amor se enfraquece quando se apoia apenas na rotina.

Estar junto é mais do que partilhar espaço: é sustentar a qualidade do encontro, capaz de renovar a presença.



Vídeo:

08/11/2025

Como você lida com o desafio de estabelecer limites nas relações?

07/11/2025

🖤 O que você espreita?

Há sempre algo que a gente observa sorrateiramente: um desejo, um medo, um pedaço do passado que ainda não teve coragem de se mostrar.

Às vezes, espreitamos o amor, mas o que buscamos é aprovação.
Espreitamos o afeto, mas tememos o abandono.
Espreitamos o outro, quando na verdade vigiamos o que em nós foi ferido.

O olhar que se esconde revela mais do que o que se mostra.
Ele entrega o quanto ainda queremos controlar o imprevisível, antecipar o risco, dominar a dor.

Mas a vida não se revela a quem apenas observa, ela exige presença.
E talvez o verdadeiro movimento de cura comece quando paramos de espreitar…
e finalmente nos permitimos ver.

O isolamento involuntário como sintoma do nosso tempo Byung-Chul Han observa que vivemos na sociedade do desempenho, ond...
15/09/2025

O isolamento involuntário como sintoma do nosso tempo
Byung-Chul Han observa que vivemos na sociedade do desempenho, onde cada indivíduo é convocado a ser empreendedor de si mesmo. Nesse cenário, a solidão não é apenas uma circunstância, mas o preço de um sistema que exige produtividade e autossuficiência a qualquer custo. A exaustão e o vazio surgem quando a vida se reduz a resultados e métricas de performance.

Já Zygmunt Bauman, em Amor Líquido, descreve como os vínculos se tornaram frágeis, moldados pela lógica do consumo: conexões rápidas, mas descartáveis. Segundo ele, “os relacionamentos se transformaram em produtos de prateleira — fáceis de adquirir, mas igualmente fáceis de abandonar”. O resultado é a experiência de estar cercado de contatos, mas carente de pertencimento.

A solidão involuntária, que a OMS já aponta como fator de risco para milhões de mortes anuais, não nasce apenas do isolamento físico, mas da precariedade das nossas formas de se relacionar.

Estamos adoecendo como sociedade, e apenas no cuidado e na solidez dos vínculos reencontraremos a condição de viver de modo verdadeiramente humano.

Link reportagem na íntegra-
https://www.instagram.com/p/DOmGXUUESuR/?igsh=MTlkdmM4dnB0NmV2Yw==

Endereço

Rua Alagoas, 1000, Bairro Savassi
Belo Horizonte, MG
30130160

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