18/12/2025
A narrativa da violência de gênero na imprensa costuma deslocar o foco: expõe a vítima, suas escolhas, sua vida, seus vínculos, enquanto dilui ou silencia a responsabilidade do agressor. Não é casual que manchetes recorram a fórmulas como “crime passional”, “briga de casal”, “ciúme” ou “tragédia anunciada”. Esses termos não apenas suavizam a violência, como a retiram do campo da decisão e da responsabilidade. O agressor deixa de ser sujeito de um ato para se tornar efeito de uma emoção, de uma circunstância, de um “excesso” afetivo. A violência, assim, é psicologizada ou romantizada, em vez de politicamente nomeada.
Quando se pergunta por que a mulher ficou, por onde andava ou com quem se relacionava, constrói-se uma pedagogia da culpa e da vigilância feminina. O agressor, por sua vez, torna-se difuso, quase sem rosto e sem verbo.
Nomear importa. Dizer “um homem agrediu”, “um homem matou” recoloca a violência em seu eixo ético e político: houve um agente, uma escolha, um ato. A forma de narrar não é neutra, ela produz sentido e pode, ou não, romper com a lógica que sustenta a violência de gênero.