08/12/2017
Faleceu na madrugada do dia 07 de dezembro, Judith Lacan Miller, aos 76 anos.
Presidente da Fundação do Campo Freudiano. Filha de Jacques Lacan e da atriz Sylvia Bataille. Casada com Jacques-Alain Miller (psicanalista responsável pelo de toda a obra de Lacan.)
Sem dúvida, nos deixará um grande legado.
Compartilho uma entrevista de Judith para a Revista O GLOBO em 2007.
Entrevista de Judith Miller( filha de Jacques Lacan) para Revista O GLOBO- Jornal O GLOBO.
Matéria extraída da Revista O Globo .Ano 3 n. 158 . 5 de agosto de 2007.
Seu pai é Jacques Lacan e seu marido, Jacques-Alain Miller, o criador dos centros psicanalíticos com tratamentos de curto prazo. A francesa Judith Miller, presidente da Fundação do Campo Freudiano, cresceu e vive até hoje cercada pela psicanálise. Antes de embarcar para o Brasil para o congresso que acontece neste fim de semana em Belo Horizonte, ela conversou por email com a “Revista O GLOBO”.
O que a senhora acha da iniciativa brasileira de seguir o exemplo dos analistas lacanianos franceses que atendem pessoas em situações de emergência, em um tratamento de curto prazo?
JUDITH MILLER: Com direção do psicanalista Hugo Freda, o Centro Psicanalítico de Consulta e Tratamento vem dando provas do seu valor. Demonstramos que todo cidadão pode exercer seu direito de tomar conhecimento da dimensão do seu inconsciente. Desse modo, ele tem a possibilidade de se aliviar de alguns sofrimentos e de sair do impasse no qual se via acuado. Eu só posso me alegrar com o fato de os colegas brasileiros declararem seu desejo de pôr em prática essa idéia.
De que outras maneiras a psicanálise pode ajudar, já que apenas poucas pessoas podem pagar por um tratamento desse tipo?
JUDITH: Quando a psicanálise se aplica à terapêutica, ela não é uma ortopedia. Freud sempre o disse, e, depois dele, Lacan. Aplicada à terapêutica, a psicanálise permite àquele que se dirige a um psicanalista encontrar outras soluções diferentes daquela constituída pelos sintomas de que padece. A psicanálise não se propõe a “ajudar”, como vocês dizem. E hoje, um século depois de publicada a “Interpretação dos sonhos”, ela está em condições de fazer reconhecer o direito de cada um de se inscrever no laço social particular.
A senhora acredita que a modernização da linguagem freudiana feita por Lacan permitiu o progresso da psicanálise tratar das novas doenças psíquicas como a depressão e os distúrbios alimentares, duas das mais encontradas entre os brasileiros?
JUDITH: Jacques Lacan não “modernizou” a linguagem freudiana. lnicialmente, ele leu Freud e restabeleceu o fio condutor da disciplina da qual Freud é o inventor. Não se deixem enganar. A anorexia, a bulimia e a depressão não são “novas doenças psíquicas”! Os laboratórios fabricam antidepressivos. Alguns deles gostariam de nos convencer dos benefícios dessas dr**as no enfrentamento desse novo mal. E mais responsável estarmos suficientemente formados a fim de podermos distinguir de qual estrutura decorre um sujeito deprimido, um sujeito anoréxico ou um sujeito bulímico para, então, intervirmos de modo conseqüente. Essa estrutura com freqüência é psicótica, mas nem sempre. Também é verdade que a psicose é cada vez mais freqüente, não apenas no Brasil.
Para a senhora, quais são as contribuições mais importantes da escola lacaniana para a clínica psicanalítica?
JUDITH: Jacques Lacan deu amplidão à clínica psicanalítica das psicoses. Ele nunca recuou diante dessa clínica, desde sua tese em psiquiatria, em 1932. Todo o seu ensino visa a circunscrever essa clínica cada vez mais e articular suas lições. Os que seguem seu ensino continuam nessa via, tão indispensável quanto apaixonante e decisiva.