07/05/2023
A despeito de tudo que se diz, apesar de toda ênfase que se coloque em relação ao pensamento nietzschiano, é interessante notar que o seu discurso contra a religião sempre foi no sentido de libertar o homem de debates intermináveis, de amarras, de aprisionamentos a conceitos morais. Por isso é que tenho insistido ser Nietzsche um homem forte, apesar da doença que o acometia. Vou citar um trecho sobre "Zaratustra" e "Ecce Homo" e, em seguia discorrer.
Antes, porém, de citar "Zaratustra" e "Ecce Homo" é bom salientar que Nietzsche gostava muito de Louise von Salomé ou Louise Gustavovna Salomé ( Луиза Густавовна Саломе), e que ela teve certa influência (mesmo que minimamente indireta) em seu pensamento. Muitos dos conceitos dela restaram arraigados no pensamento de Nietzsche. Primeiro é bom entender que Nietzsche questionava a chantagem emocional que os religiosos teciam sobre céu e inferno. Esse é o primeiro ponto. O segundo ponto é que Nietzsche, embora gostasse de Salomé, lesse Dionísio ou analisasse Arthur Schopenhauer, ele tinha um pensamento completamente pessoal e independente sobre o modo de ver a vida.
Lendo-se abaixo um trecho de Zaratustra, entende-se porque Nietzsche desconfiava do modo como a dominação, sobretudo religiosa, poderia acontecer. Não dá pra ignorar isso em Nietzsche! O texto é claro veja abaixo:
"Aqui não fala um fanático, aqui não se "prega", aqui não se exige fé: os ensinamentos caem de uma abundância inesgotável de luz e felicidade profunda, gota a gota, palavra por palavra – uma lentidão suave é a velocidade dessa conversa. Coisas desse tipo só logram ser alcançadas para os melhores dentre os eleitos; é um privilégio sem igual, poder ser um ouvinte aqui; não é a todos que é dado ter ouvidos para Zaratustra... E, com tudo isso, Zaratustra não é um desencaminhador?... Mas o que ele mesmo diz quando volta pela vez primeira para a sua solidão? Exatamente o contrário daquilo que um "sábio", um "santo", um "salvador do mundo" ou outro décadent qualquer haveria de dizer em semelhante caso... Ele não apenas fala diferente, ele também é diferente..."
Um "sábio", um "santo", um "salvador do mundo" ou "outro decadent". Segundo Nietzsche, ele pretendia se afastar completamente disso tudo, chamando todos para a realidade.
Também, no texto abaixo, é possível verificar plena consciência da finitude da vida:
"Eu vou sozinho, pois, meus discípulos! E também vós ireis embora sozinhos! É assim que eu quero e deve ser."
Em outra parte Nietzsche diz: "eu não sou um bicho papão", dando a entender que já havia naquele tempo, resistência, talvez de cunho religioso, contra suas idéias e sobre aquilo que pensava das ciências humanas. Até hoje, é comum segmentos religiosos dizerem que Nietzsche morreu louco.
Bem, é isso, coloquei aqui uma questão que pode até gerar debates, mas o objetivo é desmistificar falsas idéias sobre Nietzsche. Como disse, não dá pra avaliar Nietzsche por fora, mas entender por que pensava o que pensava e como suas idéias influenciaram muitos que vieram depois dele. Há vários estudos sobre o pensamento de Nietzsche, assim como vários livros sobre seus livros mas aqui estou falando de Zaratustra e Ecce Homo, que traduzem muito seu caráter pessoal.
Para quem quiser ler, indico alguns livros dele, como "Transvaloração de Todos os Valores", As Canções de Zaratustra", "Assim Falou Zaratustra",
" O Crepúsculo dos ídolos", Filosofia do Martelo - minha tentativa de filosofar com o martelo" , dentre outras... Todas indicadas por ele mesmo também.
Mauricio Silva