02/12/2025
Hoje ganhei uma orquídea.
Um gesto simples… mas carregado de tudo aquilo que a medicina insiste em me ensinar e que, às vezes, eu esqueço.
Em julho de 2024, diagnostiquei uma paciente com câncer de pulmão avançado, já com metástase cerebral.
Jovem, 54 anos. Prognóstico sombrio. Internações sucessivas. Intercorrências graves. Dois meses no hospital. A família chamada porque “não havia mais o que fazer”.
A última vez que a vi, em dezembro daquele ano:
cadeira de rodas, careca, muito inchada, confusa.
Mal sabia onde estava.
E, dentro de mim, a certeza silenciosa de que seria o nosso último encontro.
Mas ontem a vida resolveu me desmentir.
Ela apareceu na clínica. De surpresa.
Pediu para me entregar uma flor.
E quando abri a porta… entrou andando, com o cabelo arrumado, falando, sorrindo, viva.
Está participando de um estudo clínico, usando uma medicação oral específica para o tipo de câncer dela. As lesões reduziram. Ela voltou a viver.
E, se tudo correr bem, vai passar o Natal deste ano em casa, com a família — algo que ninguém imaginava.
Nesse momento, segurando uma orquídea, tudo ficou claro de novo:
a medicina virou palco para muita coisa que não é medicina. Mas, no fim, tudo volta ao essencial — e o essencial é simples: cuidar!
Da Vinci já dizia: “a simplicidade é o grau mais alto da sofisticação.”
O resto acontece naturalmente, como no poema:
“O segredo não é cuidar das borboletas; é cuidar do jardim para que elas venham até você.”
É isso que eu tento fazer todos os dias:
cuidar do meu jardim.
Da minha prática.
Das pessoas que confiam em mim.
O barulho lá fora é grande.
Mas aqui dentro…
a medicina ainda é simples.
Humana. Silenciosa. Surpreendente.
E, às vezes, te entrega uma orquídea para te lembrar disso.