03/05/2026
Hoje, completo mais de sete mil quilômetros com minha bike. Não sei porquê. Se o fiz, desejo muito, e me alimento de volta, e arrasto um tanto de gente que amo comigo. Gosto também de estar sobre aquele selim sozinho, em sete milhares de milhares de metros comigo. Amo meu pedal, para poder amar qualquer livro, casa, Missa, pessoa, como premissa.
Não há direção, em sete quilômetros, não há direção, em nenhum centímetro. A explicação existirá no afeto, do desafio que existe, que me manda, me engaja, me implica. O que é isso que nos puxa, nos traz, nos sacode, se não lhe atribuímos sentido?
Falamos a última pérola do lácio, um rio que corria latim, em terras romanas, e vai sendo falada às praias lisboetas do leste. De Nazaré, do Tejo, da areia, não há mais para outro lugar correr, se não o mar, o Congo, Vitória do Espírito Santo, Minas. Dessa língua, rota, brota, linda, corre um palavra, de mais difícil signif**ado, amor, amar, e todas as suas vicissitudes.
Sete mil quilômetros, sem sair do lugar, sem olhar, que não a lagoa, linda nossa, ora fedida, ora amada. São quase quatrocentos tornos em seu entorno, em seu enterro, em seu renascimento. E o amor, essa palavra difícil, vem me dizer que sete mil quilômetros, quase quatrocentas voltas, são de um amor de mim, para uma manutenção mamute de existência. Ai se não a tivesse.
Mas que movimento mais gótico, trash, egoísta, “amar-se”? Que discurso vazio? Sim, se não for composto por um trilho, limpo, lindo, modesto e cheio, de razão e entendimento de amar o outro. Se não gosto de mim, se não me entendo, em uma tentativa difícil, esdrúxula, calada, longa ou de veneta, não consigo encontrar forma de me render ao outro, desejá-lo, ver-me verme orgulhoso, inchado como um balão, derretido e consciente de um amor constrangido pelo outro. Amor de renovação, de existência.
O sangue dela está em mim, nos meus filhotes, nos meus sobrinhos, literalmente. E trazemos todas as suas desconstruções. Tenho a certeza de sete mil km de bike. Meu mais velho, sua certeza das contas. Meu mais novo, suas figurinhas. E você me questionar a razão de tudo, vó. Até para o que falta razão. E o inexplicável de uma queda.