09/09/2025
“Tudo começa com a angústia. A angústia assinala um momento de caos, perturba, desorienta, comove, locomove e, eventualmente, conduz ao consultório de um analista. Ela é anterior ao próprio caos, pois este é apenas inferido, suposto, a partir da experiência da angústia. Trata-se de uma experiência de desmoronamento radical das escoras subjetivas. O mundo desaba mas, estranhamente, sabe-se que tudo permanece onde está. Isto porque a angústia não diz respeito aos significados do mundo. Podemos apenas descrever suas sensações sem, contudo, tocar em sua causa. Por esta razão, não é possível dar um sentido comum à experiência da angústia, justificando-a a partir deste ou daquele episódio, por este ou aquele motivo. Da mesma forma, não é possível constituir uma explicação, um saber que comunique sua natureza, nem tampouco descobrir um conteúdo que a dissolva.
A angústia não serve para nada. Sabendo disso, tanto Freud quanto Lacan partem do consenso, da experiência quotidiana, para abordá-Ia. ‘Não tenho necessidade de apresentar a angústia a vocês’, este é o enunciado que sela o modo como Freud resolve esta dificuldade: tratar da angústia sem aprisioná-la no mundo dos objetos do sentido e da significação. Isto seria confundi-la com a ansiedade dos psiquiatras ou coisa que o valha, retirando-lhe o fundamento de indeterminação real, fundamento no vazio. Nada é, portanto, o que causa angústia e nada é também o que a cura. O nada angustia, e do nada a angústia retira sua força. É precisamente este nada que uma análise pode transformar em exigência de trabalho e, em conseqüência disso, eventualmente, engendrar o novo.”
📚 Marcus André Vieira, em: A ética da paixão - Uma teoria psicanalítica do afeto.
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