02/06/2025
Uma vez escrevi um poema que começava assim: "Sou rio, não meço palavras."
Na verdade, não era bem um poema — era mais uma confissão. Um sussurro firme, vindo de um lugar onde as palavras não são escolhidas para agradar, mas para libertar. Porque há momentos na vida em que calar dói mais do que dizer. E, como dizia Jung, “aquilo que negamos em nós, nos submete”.
Há quem diga: fale mais leve. Como se o mundo fosse um cristal à beira da rachadura, e a dor — essa velha companheira da alma — um incômodo passageiro que não merece ser nomeado. Mas quem carrega mares dentro de si, sabe: há dores antigas que não querem silêncio. Querem transbordo.
No inconsciente, aquele vasto território que Jung mapeou como quem procura os contornos da alma, tudo o que é reprimido retorna. E não retorna manso. Retorna como sombra — essa parte de nós que não mostramos, mas que insiste em se fazer vista nos momentos em que tentamos parecer leves demais, bons demais, aceitáveis demais.
A voz do poema não aceita mais caber em moldes pequenos. “Já tentei caber em moldes pequenos, calar o que arde, conter os venenos”, diz ela — como quem já vestiu a roupa alheia para caber no mundo, e viu que, ao fazer isso, apagava a própria luz. Rubem Alves dizia que “ostra feliz não faz pérola”. A dor, a intensidade, o transbordamento — tudo isso, se acolhido com amor, vira beleza. Vira arte.
Mas o problema é que muitos têm medo do profundo. “Já fui chamada de intensa demais”, confessa o eu-poético. E quem nunca foi? Vivemos numa cultura que valoriza a performance, não a profundidade. Que prefere o raso polido à autenticidade crua. E é por isso que os rios são tão mal compreendidos — porque não pedem licença para seguir. Apenas seguem. Fieis ao seu traço.
Na psicologia junguiana, tornar-se inteiro exige coragem para encarar a própria sombra. Para não se reduzir. Para dar nome às coisas que o mundo sente, mas não ousa dizer. E é isso que a voz do poema faz: transforma fala em ponte — não em prisão. Abre caminhos para que outros também possam se reconhecer na correnteza.
Porque ser rio é isso: mover, tocar margens, desatar pedras, carregar histórias. Ser rio é não pedir desculpas por existir em fluxo. É não se disfarçar para caber. É seguir — mesmo quando ninguém entende, mesmo quando os outros preferem poças calmas às águas que dançam com a profundidade.
Rubem Alves escreveria assim, talvez entre um chá e um devaneio: “A alma precisa de espaço para cantar. E quem canta com a alma incomoda quem vive apenas com a razão.”
Então, se alguém um dia lhe disser que você é demais — demais intenso, demais sensível, demais verdadeiro — sorria. E diga, com mansidão: sou rio, não meço palavras. E siga. Porque o mundo precisa de gente que transborda.
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Sou rio: uma reflexão sobre inteireza, sombra e coragem de ser
Texto e Imagem: Priscila de Julio