10/10/2014
Kafkiando por aí...
Depois de ter lido O Processo e Na Colônia Penal, hoje resolvi sair para visitar o fórum, tribunal de justiça e justiça federal no intuito de agilizar e acompanhar alguns processos que alguns amigos e familiares me confiaram.
Após experimentar vários vestidos candidatos a cara de senhora advogada respeitada, optei por um pretinho básico de crepe com guipir, o qual ganhei da minha mãe, mas que nunca tinha saído do guarda-roupas. Vesti nos pés uma rasteirinha preta suficientemente elegante para quebrar um pouco a formalidade excessiva do vestido. Amarrei o cabelo, maquiagem, e pérolas para completar o discreto e sofisticado look. Ah, escolhi também uma bolsa de grife oriunda de um dos meus delírios de consumo cibernéticos, já fora de moda – espero não encontrar hoje especialmente aquela pessoa-, mas que tem um tamanho ideal para carregar o xerox dos autos de um processo que pretendia tirar, uma de minhas nada empolgantes tarefas da tarde.
Como a legítima advogada careta saí a caminhar pelas ruas da José do Patrocínio, rua em que moro na cidade baixa com meu ex-noivo. À medida que caminhava, me dei conta do sentimento kafkiano que me tomava a cada passo, a começar por estar me sentindo ridícula com aquele visual que não tinha nada a ver comigo, cruzando com as pessoas que caracterizam aquele bairro despojado, na falta de um melhor adjetivo. Senti-me como a personagem Helene de uma das obras que acabara de ler, a qual vestia “um velho traje de baile, excessivamente carregado, que chamava a atenção, de uma maneira particularmente desagradável [...].”
No ritmo charmoso de minha la vie en rose (quase uma parisiense hahah) me vi obrigada a entrar na padaria chechelenta que tanto evito para matar minha fome desleixada. Perante a recusa de pedir novamente aquele quiche de espinafre com ricota, optei por uma empada integral de gorgonzola com cebola caramelada. Péssima escolha... Fora o fato de que fui obrigada a pedir outro capuchino para terminar de engolir as garfadas que consegui dar daquele quitute massudo e sem sabor. - Como faltam opções “saudáveis-veganas-narureba” de lanche por aqui -, certamente no bom fim é melhor.
Insatisfeita com a refeição, tomei meu rumo processual e logo me fundi às demais jovens mulheres que caminham pelos arredores do tribunal, me sentindo mais uma daquelas peruas de narizes empinados que se adaptam perfeitamente ao processo. Por entre os engravatados com gel no cabelo - não me atraem homens que usam gel, sempre preferi os barbudinhos com cara de mendigo, como me dizia uma amiga nos tempos da faculdade de direito -, tentei me diferenciar o possível daquela massa jurídica e conservar minha dignidade, provinda da cidade baixa.
Cheguei ao balcão da vara, psicologicamente preparada para quebrar com a maior simpatia possível o gelo daquele encontro sempre hostil no primeiro momento, em que tenho que mostrar a carteira da Ordem dos Advogados para ser respeitada e chamada de doutora – apesar de eu ter feito apenas mestrado - perante os subalternos funcionários do cartório. Após conquistar a servidão canina de um deles, fui tirar o bendito Xexox que me levou quase todo o dinheiro da carteira.
Fiquei lá esperando, celular sem bateria, ouvindo o discurso de uma parte que reclamava que o processo de sua avó já durava 24 anos. Ela falava sozinho num tom cômico para impressionar quem estava por perto, e ao final largou um: “falo isso só para assustar os advogados”. Saiu pela moderna porta de vidro com um ar triunfante.
Interrompi minha espera com uma ida ao banheiro daquele andar e lá encontro uma jovem mulher fazendo selfies no espelho!
Após aquele episódio, nada mais de extraordinário, cumpri meus afazeres e senti ao final daquele turno um alívio gigantesco por ter finalmente me livrado daquilo tudo. Afinal, o que menos importou naquela tarde foi a justiça.