05/12/2019
Trabalho apresentado no SIMPÓSIO DE PSICANÁLISE E PRÁTICA MULTIDISCIPLINAR NA SAÚDE - UEL-UERJ
"Na Atenção Psicossocial, a maioria dos tratamentos é paramentada pelo Discurso Médico (Clavreul, 1983), o qual concebe a toxicomania pelo prisma orgânico e curativo, entendendo que sua suposta cura é a abstinência (Shimoguiri & Périco, 2014). Na contramão do curativismo está a Psicanálise de Freud e Lacan, que precavida pelos impossíveis freudianos – governar, educar e analisar - não impõe nenhum ideal de cura, tampouco atribui signif**ados tautológicos ao uso de dr**as.
Com efeito, há a superação das terapêuticas baseadas nos princípios disciplinares doença-cura, sujeito-objeto e saber-poder, isto é, nos Discurso do Mestre e Discurso da Universidade (Lacan, 1992). Ao introduzir o Discurso da Histérica e Discurso do Analista (Lacan, 1992), a psicanálise defende que toda tentativa de curar outrem é desde sempre fracassada, haja vista que cada sujeito apresenta formas singulares de angustiar-se na sua ex-sistência e, sobretudo, como disse Freud: “Não existe uma regra de ouro que se aplique a todos: todo homem tem que descobrir por si mesmo de que modo específico ele pode ser salvo” (Freud, 1930[1929]/1996, p. 91). Em outras palavras, é o saber do inconsciente que precisa ser produzido para que o sujeito possa curar-Si.
O objetivo deste trabalho foi fundamentar os atendimentos terapêuticos ocupacionais, mais especif**amente as oficinas realizadas nos CAPS, à luz da Psicanálise de Freud e Lacan, considerando que a psicologia não é a única profissão que pode sustentar a ética da Psicanálise.
Se o desejo do analista é que haja análise, visamos ofertar oficinas variadas, operando nas entrevistas preliminares (Quinet, 2005), aguardando que, num dado momento, já que a oferta gera a demanda, ao adentrar a Função e campo da fala, ao topar com sua verdade, alguma questão sobre o uso de droga se colocasse ao sujeito, e, a partir daí, pelo seu dis-curso, lhe fosse possível produzir um saber de estatuto inconsciente, capaz de fazer frente ao uso abusivo de dr**as, à repetição.
Minha prática de atuação como terapeuta ocupacional nos CAPS aponta para o fato de que é extremamente válido pensar um alargamento das possibilidades do campo comum da psicanálise em intenção (Rinaldi, 1997; Alberti & Elia, 2000; Elia, 2010; Costa-Rosa, 2015), que ouse ir além do lócus originário, do tradicional setting psicanalítico. Ademais, nenhum trabalhador adentra a Atenção Psicossocial como psicanalista, entretanto, a Psicanálise, a despeito de não ser convocada, é um referencial eticamente necessário para que não somente os terapeutas ocupacionais, mas também outros trabalhadores, possam redimensionar suas práticas, pelo avesso do Discurso Médico (Clavreul, 1983), situando-as nos horizontes do desejo, não da disciplina".
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