02/02/2026
Quando eu gestei, eu carregava muito mais do que um bebê no ventre.
Eu carregava expectativas.
Certezas.
E uma confiança quase ingênua de que tudo seria simples.
Eu acreditava que iria parir fácil.
Minha mãe havia tido três partos.
No meu imaginário, isso era quase uma herança biológica:
“meu corpo sabe”.
Eu estudava enfermagem.
Achava que informação técnica era suficiente.
Achava que saber nomes, protocolos e fases do parto me blindava do medo.
Achava que comigo seria diferente.
Mas o corpo não leu as apostilas e artigos.
Minha mente não assimilou o processo.
O parto não obedece certezas.
E a gestação… ah, a gestação começa a nos despir muito antes do nascimento.
Vieram os medos: mesmo quando eu tentava ignorá-los.
Veio a solidão de não saber exatamente o que sentir.
Veio o parto real, distante daquele que eu havia idealizado.
Não foi “fácil”.
Não foi como eu esperava.
E por muito tempo, eu senti que tinha falhado…
como mulher, como estudante da saúde, como alguém que “deveria saber”.
Hoje, olhando para trás, eu entendo:
não faltou força no meu corpo.
Faltou sustentação.
Faltou preparo emocional.
Faltou alguém para cuidar de mim enquanto eu paria.
Essa experiência não me quebrou.
Ela me virou do avesso.
E foi exatamente daí que nasceu a mulher que eu sou hoje.
Quando eu gestei, eu pari um bebê.
Mas, depois, precisei parir a mim mesma de novo, com mais consciência, mais humildade
e um desejo profundo de que outras mulheres não passem pelo parto se sentindo sozinhas.
É por isso que eu estou aqui.
É por isso que eu escolhi caminhar ao lado de outras mulheres.
Porque informação importa, sim.
Mas presença muda tudo.