21/03/2016
Bem, vamos começar do comecinho…
Minha gravidez foi bem tranquila, não tive enjoo, dores, nada mesmo. Fui bem ativa até o dia que senti a primeira contração. O trabalho de parto já foi um pouco difícil, pois tive contrações por dois dias e nenhuma dilatação. Quando finalmente tive a dilatação necessária, e fui para a sala de parto, me disseram que em quinze minutos poderia ver o rostinho da minha menina, mas demorou duas horas e meia. Foi necessário que três médicas ajudassem, uma sentou na minha barriga para ajudar a expulsão. A Gabi não queria vir a este mundo, mas veio no dia 29/01/2005, com 51 cm e 3,700kg, perfeita, linda e saudável. Em 2005 ainda não era obrigatório o exame da orelhinha, e ela não o fez.
Cresceu e foi desenvolvendo normalmente quando bebê. Quando ela estava com cinco meses comecei a achar estranho que ela não me olhava quando eu a chamava, comecei a fazer te**es em casa, fazia todo tipo de barulho para ver sua reação, e nada!
Levei-a à pediatra que a acompanhava e relatei minha suspeita, pedi um encaminhamento para o otorrino, e sua resposta foi exatamente esta: “ A senhora não tem problema na vida e quer arrumar um na sua filha! Ela não é surda!” Palavras que nunca vou esquecer e que marcaram o início do meu martírio. Em junho de 2005 comecei a procurar pediatras e otorrinos. Passei por todos os pediatras do convênio, somente o último me deu o encaminhamento após ser ameaçado de processo.
Perdi um ano da vida dela fazendo tratamento com um otorrino que dizia que ela não era surda e sim que tinha uma infecção no ouvido e muita carne esponjosa no nariz, isso a impedia de ouvir. Ele receitou seis remédios à base de cortisona, esses remédios eram fortíssimos.
Em um dos exames que ela fez conheci uma fono que me deu o contato do Hospital São Paulo, consegui uma consulta. A Gabriella já estava com um ano e meio.
Na primeira consulta do HSP me disseram o mesmo, que a infecção não permitia que ela ouvisse, que eu não precisava me preocupar, pois nessa idade é normal a criança não falar. Iniciei o novo tratamento, novos remédios… após alguns meses pedi que ela fosse atendida pela coordenadora do setor, consegui marcar uma consulta com ela e após trinta minutos ela me deu um laudo, dizendo que a Gabriella tinha surdez profunda bilateral. Nesse momento a Gabi tinha dois anos e meio. Foi nesse momento também que meu mundo caiu, meu chão desapareceu. Até então eu sentia um desespero, mas também tinha um pingo de esperança, e essa esperança se foi. Quando eu li aquele laudo senti uma revolta muito grande, fiquei inconformada, achei uma injustiça com ela, uma criança tão linda e saudável. Briguei com Deus, orei e implorei que Deus tirasse a minha audição, me fizesse surda, mas não deixasse minha filha surda. É minha única filha, gerada quatro anos após a perda de um bebê de quatro meses. Quando perdi meu primeiro bebê a médica me disse que dificilmente eu teria outro filho. E agora que finalmente tinha realizado meu sonho de ser mãe, sentia que aquilo não estava certo. Todo tipo de pensamento ruim veio a minha cabeça e me angustiei por anos, pensava que ela não teria uma vida normal, que não poderia estudar, que seria excluída da sociedade…
Bem, ela começou a terapia com a fono no HSP, era bem sacrif**ante, eu não morava na capital, e tinha que sair de casa às 9h e voltar às 8h ou 9h da noite, três vezes por semana. Isso durou seis meses e foi quando ela ganhou o aparelho, a prótese auditiva e foi negado o implante coclear, com a alegação que a terapia seria suficiente para desenvolver a fala dela. Depois consegui uma vaga em um programa da prefeitura da minha cidade, ela então começou nesse lugar a fazer a terapia em grupo. Nesse grupo ela ficou durante um ano.
Com três anos ela foi para a escola regular e até que se adaptou bem, ela tinha direito a uma professora exclusiva, que era ótima com ela. Quando completou quatro anos ela perdeu o direito a essa professora e os problemas começaram. Ela estava sozinha numa sala cheia de crianças que falavam e ouviam e com uma professora que não tinha nenhum preparo para lidar com ela. Meu coração se partia cada vez que eu a via sozinha no recreio, cada vez que via uma criança rindo dela.
Então procurei o Hospital das Clínicas de SP, passei por algumas consultas e ela fez muitos exames, e novamente foi negado com a mesma justif**ativa. A fono disse que o desenvolvimento da fala estava sendo prejudicado por ela estar na terapia em grupo, que ela precisava de uma fono particular.
Lá fui eu em busca de uma fono que atendesse crianças surdas, parece incrível, mas não foi nada fácil. Enfim encontrei uma clínica, e ela iniciou novamente a terapia. Após alguns meses ela conseguiu falar MAMA!! Vocês não imaginam a minha alegria, demorou quatro anos para que eu pudesse ouvir minha filhinha me chamar de MAMA! Meu coração se encheu de esperança, ela conseguiu algumas palavrinhas Papo (avô), Ea (Bela, avó), Abu (água), auau (cachorro), tinha certeza de estar no caminho certo. Seis meses se passaram e a fono teve que mudar e não poderia mais atendê-la. Novamente a saga em busca de outra fono. Consegui uma nova e nessa ela ficou mais um ano. Nesse ano a Gabi estava crescendo, percebendo o mundo ouvinte e percebendo que ela tinha um problema. Não houve nenhuma nova palavra, sílaba, som…
Nesse último ano ela trocou de escola quatro vezes, o período na escola era horrível para ela. Ela sofria porque percebia que estava fora daquele mundo.
Quando estava com cinco anos e pouquinho, eu já não suportava mais ver aquele sofrimento dela. Ela se recusava a ir à escola, chorava. Tentei escola particular e não foi diferente. Ela era uma criança extremamente nervosa, estressada. E eu não podia aguentar mais, eu não sabia mais como lidar com aquilo tudo, sofria também porque não podia conversar com ela, não sabia o que ela sentia, o que ela pensava. Tudo era muito difícil para mim e muito mais pra ela, qualquer coisa como um simples pedir um pão com manteiga era um transtorno, ela não sabia falar e a fono proibia os sinais. Aquilo me martirizava.
Resolvi que não era a Gabi que precisava se adaptar ao mundo, e sim o mundo teria que se adaptar a linguagem dela. Parei com a terapia e a coloquei numa escola especial para surdos. Ainda acredito que foi a melhor decisão que tomei, foi um marco em nossas vidas. Rapidamente ela aprendeu os sinais básicos, e eu me mudei para perto da escola para aprender mais. Ela mudou completamente, ficou mais calma, e parecia que havia se encontrado no mundo. Agora ela tinha amiguinhos na escola, e entendia o que a professora falava. Foi um momento único e muito lindo.
Por muito tempo achei que isso seria o suficiente para proporcionar uma vida normal a ela, mas de um tempo para cá, desde que ela virou mocinha (com oito anos), senti que ela ficou diferente. Ela foi f**ando cada vez mais tímida, envergonhada, coisa que nunca foi. Todos diziam que ela era uma criança feliz, só vivia rindo. Não queria mais sair de casa, nem para ir brincar no parquinho, ou no shopping.
Nesse período eu voltei a trabalhar, achei que já era o momento, pois ela já estava mais crescida e já havia comunicação entre nós, mesmo que às vezes seja falha. Eu havia abdicado de toda minha vida, parei de trabalhar e fui fazer faculdade à distância, para não f**ar longe dela. Isso não foi um sacrifício para mim, tudo que eu queria era f**ar perto dela.
Estava trabalhando em uma escola pública, finalmente concursada. Mais uma vez o que era pra ser um sonho se tornou um pesadelo. Depois de um ano na escola, sofri várias agressões físicas por parte de alunos. Aguentei muito bem enquanto eram agressões verbais, até aguentei as primeiras vezes que fui agredida fisicamente. Mas em algum momento meu psicológico se enfraqueceu e eu não pude mais lidar com aquilo. Fui afastada por psiquiatria, com depressão, síndrome do pânico e ansiedade. Tudo que eu havia conquistado se foi, tive que me mudar, pois os alunos me ameaçaram. De um dia para o outro eu vendi o carro e me mudei para o apartamento dos meus pais.
A Gabriella cada dia f**ava mais tímida, mais fechada, mais nervosa. Com muita insistência consegui que ela fosse brincar com as crianças do prédio. Ela brincou uma, duas, três vezes e parecia muito feliz, até que um dia ela voltou chorando e dizendo que não gostava das crianças, que não queria mais brincar com elas. Eu sai para saber o que havia acontecido e vi as crianças imitando o jeito dela falar e rindo muito, uma delas disse que a Gabriella parecia louca. A Gabi chorava tanto, parecia que nem respirava e falava que ela não sabia falar, que a voz dela não saia da boca, ela tentava, mas não saia nada, não dava para falar. Foi um dos piores momentos da minha vida.
Ela se fechou de uma forma tão profunda, não saia mais de casa, só para ir à escola e antes de sair perguntava se tinha alguma criança lá fora. Não conversava nem comigo direito, não me deixava fazer carinho nela, não me abraçava… nada. E ela sempre foi muito carinhosa.
No Natal a convenci a ir ao shopping pra ver a decoração, e com esforço a levei para tirar uma foto com um esquilo gigante. Ela estava feliz até que o esquilo falou com ela, era um tipo de robô, ela simplesmente saiu correndo, gritando e chorando pelo shopping. Disse que não queria que as pessoas falassem com ela. Tentei desesperadamente conseguir um psicólogo que falasse Libras mas não consegui.
Fiquei meses afastada, me recuperando, e consegui uma transferência para a escola que f**ava na porta do prédio dos meus pais. Era ótimo, podia ir a casa rapidamente e colocar a Gabi na perua escolar. Meu sossego durou dois meses apenas, novamente eu fui vítima de agressão, não quis me afastar e continuei indo à escola. Novamente houveram ameaças e perseguições. Decidi, junto com meus pais, mudar de lá.Gabi está agora com 10 anos e estamos em Guarulhos. Ela melhorou sua timidez, mas ainda não gosta de sair muito e quando aceita sair ela pergunta se alguém vai falar com ela, se eu disser que sim ela se recusa a sair, sempre digo que não, que ninguém vai conversar com ela.
A distância da minha casa até a escola é gigante, a escola f**a na zona sul da capital de SP e minha casa em uma cidade vizinha. Ela entra às 7h e tem que sair de casa às 5h20min. Tem sido muito sacrif**ante para ela.
O que me deixa mais triste é que ela está crescendo, e perdendo tudo à sua volta. Sempre está perguntando o que conversamos em casa, e mesmo em sinais não consigo explicar tudo para ela. Muita informação se perde. Ela não tem conhecimento do que acontece no mundo, coisas comuns que as crianças sabem por estarem o tempo todo ouvindo a TV, vendo vídeos na internet e ouvindo as pessoas da casa conversando. Ela não sabe que existem outros países, e que lá as pessoas falam outra língua. Ela não pode ouvir minha voz, a voz dos seus personagens favoritos, ela não conhece nenhuma trilha sonora dos filmes que ela tanto gosta, ela não pode ouvir música… e é incrível, porque ela gosta de dançar e cantar. Ela adora assistir os dvd's do Guns junto comigo, diz que o Axl e o Ashba são lindos, ela gosta do Frank também :)
Fico pensando que se ela tivesse o implante, tudo teria sido normal. Ela poderia ouvir a musiquinha da Frozen e cantar sem parar, como as filhas das minhas amigas fazem. E poderia ouvir os sons em volta dela, passarinhos cantando, uma música tocando, as pessoas conversando. E não só ouvir, mas participar ativamente disso.
Eu errei quando acreditei que ela teria uma vida normal só com a linguagem de sinais. Hoje ela vive só comigo e meus pais, que são idosos. Não tem amigos. Nem as pessoas da família convivem com ela. Ninguém de fora sabe Libras.
Ainda temos muitos problemas de comunicação, muitas vezes ela f**a nervosa e grita, chora quando eu não entendo o que ela fala, tenho medo dela crescer, se tornar adulta e eu perde-la por não saber me comunicar bem com ela. É muito difícil explicar sentimentos profundos, conceitos pra ela.
Meu único desejo é que ela faça a cirurgia e possa recuperar esse tempo vivido em silêncio. Que ela tenha uma vida normal, de verdade, como eu tenho. Quero poder ouvi-la cantando.
Sei que escrevi demais e eu resumi as situações ruins que ela passou…
Apesar do tom triste desse relato, minha filha é uma criança feliz, com suas limitações sim, mas também com muitas lutas e vitórias até aqui. E eu sou muito feliz e agradecida por tê-la como filha. Não me arrependo de ter sido mãe solteira, de ter f**ado anos sem trabalhar, sem namorar, sem sair. A melhor coisa da minha vida é minha filha, eu daria tudo por ela, inclusive minha vida.