15/03/2026
Um relato longo, mas muito especial do Gregg Braden esclarecendo que praticamos Ho'oponopono pra corrigir o nosso preconceito em relação a algo ou alguém e não porque o que está no outro esteja obrigatoriamente em nós.
Elenizia Bernardes
"Em 1992, três pessoas novas dentro de um período bastante curto passaram a fazer parte da minha vida. Por meio delas experimentei os três relacionamentos mais intensos e dolorosos que conheci na vida adulta. Ainda que não tivesse reconhecido isso na época, cada uma delas se revelaria capaz de me ensinar de uma maneira que jamais teria imaginado ser possível. Juntas elas me ensinaram uma lição única, suficiente para garantir que minha vida nunca mais fosse a mesma. Ainda que cada um desses relacionamentos servisse como um espelho para mim precisamente no momento exato, inicialmente não reconheci o que eles me ensinavam.
O primeiro relacionamento foi com uma mulher, que tinha entrado em minha vida com metas e interesses tão semelhantes aos meus, que havíamos resolvido viver e trabalhar juntos. O segundo foi com uma parceria profissional que supria minha grande necessidade de auxílio na criação e organização dos seminários que eu fazia pelo país. O terceiro relacionamento, que combinava amizade e arranjo comercial, era com um homem que cuidava da minha propriedade quando eu me ausentava a trabalho e, em troca morava em uma das minhas casas sem uso e em reformas.
O fato de esses relacionamentos me aparecerem ao mesmo tempo deveria ter me dado uma indicação de que alguma coisa estava acontecendo — alguma coisa grande. Quase imediatamente, todos os três relacionamentos começaram a testar minha paciência, meus limites de atuação positiva e minha capacidade para solucionar problemas. Senti que essas pessoas estavam me tirando o juízo! Tinha discussões e desacordos com todas as três. Como estava viajando bastante, minha tendência era não considerar seriamente as tensões e não procurar soluções para os problemas. Eu me peguei tomando a atitude do "esperar para ver" até voltar de minha próxima viagem.
Ao fazer isso, as coisas estavam como eu tinha deixado, algumas até em estado pior. Nessa época, eu seguia uma rotina cada vez que chegava ao aeroporto vindo de um seminário. Eu sempre apanhava minha bagagem na esteira, retirava dinheiro no caixa automático para gasolina e uma refeição, e pegava o carro para minhas quatro a cinco horas de volante até em casa. Entretanto, durante uma dessas viagens, aconteceu algo que tornou evidente tudo o que estava acontecendo naqueles relacionamentos. Depois de apanhar minha bagagem, fui até o caixa automático fazer minha retirada. Foi quando tive um choque ao ser avisado pela máquina que meu saldo não era suficiente nem para encher o tanque na volta para casa! O que mais me apavorava é que eu já tinha preenchido cheques justamente daquela conta para pagar a uns empreiteiros, contratados para reformar construções centenárias em minha propriedade. Depois do pagamento da hipoteca, das despesas de escritório e de viagem e dos gastos familiares, o saldo restante era absolutamente insuficiente para as outras obrigações. Sabia que se tratava de algum engano. Também sabia que às 17h30min daquele domingo à tarde no Novo México, nada poderia ser feito, tudo estava fechado até segunda- feira. Convenci o responsável pelo estacionamento de que ele poderia ficar tranquilo, o pagamento pela estadia do veículo seria remetido pelo correio tão logo eu chegasse em casa. Iniciei então o regresso pensando no que poderia ter acontecido.
Quando telefonei para o banco na manhã seguinte, minha surpresa foi maior ainda. Olhando incrédulo, vi que o saldo praticamente igual a zero não tinha sido uma ilusão: não havia mesmo quase nada na conta. Na realidade, havia menos do que nada — tinha ocorrido uma retirada indevida da mulher em quem eu havia confiado meus negócios e que tinha esvaziado completamente a minha conta. Devido às multas sobre os cheques sem fundos, eu repentinamente estava mergulhado em um saldo negativo de centenas de dólares. Eu me senti chocado e descrente. Repentinamente fiquei nervoso e, em seguida, furioso. Comecei a me lembrar de todas as pessoas a quem tinha dado cheques e como iria fazer, já que não poderia honrar minhas obrigações. A violação de minha confiança e o desrespeito completo a mim e aos meus compromissos doíam mais do que eu era capaz de expressar. Para piorar as coisas, um pouco mais tarde nesse dia minha relação comercial chegou ao ponto de ebulição.
Quando abri minha correspondência e verifiquei a contabilidade das minhas despesas durante os seminários que havia concluído, encontrei discrepâncias: num instante já estava ao telefone, discutindo item por item na tentativa de esclarecer a prestação de contas. Nessa mesma semana, descobri que o inquilino que morava na minha propriedade estava com interesses não só frontalmente opostos aos acordos que tínhamos feito, mas também mal vistos pelo estado do Novo México. Sem sombra de dúvida, eu não podia mais ignorar o rumo que meus relacionamentos haviam tomado.
Na manhã seguinte, fui dar uma caminhada pela estrada enlameada que vai da minha propriedade até uma grande montanha que assoma sobre o vale atrás de casa. Enquanto fazia uma prece silenciosa, ia pisando cuidadosamente no sulco lamacento das rodas do carro e nos gravetos quebrados, e pedia por sabedoria, para reconhecer o padrão daquilo que me estava sendo mostrado de maneira tão gritante, malgrado minha impossibilidade de vê-lo com clareza. Qual a linha comum que tecia a rede desses relacionamentos?
(...) Imediatamente as palavras começaram a varrer minha mente, algumas com tanta rapidez que desapareciam em seguida, outras lá ficando com bastante clareza. Dentro de segundos, quatro palavras se sobressaíram dentre todas as outras: honestidade, integridade, verdade e confiança. Fiz a mim mesmo outras perguntas. Se essas pessoas estão refletindo o que sou no momento, elas então estão me mostrando que sou desonesto? Será que de alguma maneira violei a integridade, a confiança e a verdade em meu trabalho? Enquanto minha mente fazia essas perguntas, um sentimento brotou no meu íntimo. Dentro de mim uma voz — a minha própria — gritava: Não! Claro que sou honesto! Claro que tenho integridade! Naturalmente falo a verdade e sou de confiança! Essas são as coisas básicas que fundamentam meu trabalho e é o que compartilho com outras pessoas.
No momento seguinte, outro pensamento me ocorreu, efêmero no começo, depois cada vez mais claro e forte, até ficar bastante sólido para ser visto e reconhecido. Naquele momento o espelho, subitamente, ficou claríssimo: as três pessoas que eu tinha tão habilmente introduzido na minha vida não estavam me mostrando o que eu era naquele momento, mas sim, cada uma delas havia me mostrado um reflexo mais sutil, um do qual ninguém havia ainda me falado. Elas estavam me mostrando aquilo que eu julgo, não o que eu era, e fizeram isso por meio da incompatibilidade entre nossas crenças e estilos de vida! Esses indivíduos mostravam-me as qualidades que tinham disparado a sensação de peso em meus ombros — as mesmas qualidades que senti que haviam violado.
Nessa época de minha vida, eu tinha realmente em alta conta o modo como as pessoas mantinham atributos como a honestidade e a integridade. Com toda probabilidade, minha bagagem dessas responsabilidades tinha sido formada durante a minha infância. Em um instante minhas experiências recentes adquiriram significado claro. Imediatamente eu me lembrei de todas as vezes em que essas mesmas qualidades tinham sido violadas na minha vida: eu me recordei dos meus romances em que minhas parceiras não foram verdadeiras com a relação a pessoas comuns em nossa vida; das promessas da vida adulta, feitas mas nunca honradas; dos amigos bem-intencionados e dos mentores corporativos que prometeram coisas que nunca poderiam cumprir... minha lista prosseguia e crescia sem parar. Meus julgamentos acerca desses tópicos tinham sido construídos ao longo de anos, com tal grau de detalhes que eu nunca tinha sido capaz de reconhecê-los. Agora ocupavam o núcleo de algo que eu não poderia ignorar. A consequência mais ampla de ter uma conta bancária zerada era a garantia de que eu teria de compreender a mensagem desses relacionamentos antes que pudesse avançar na vida. Foi nesse dia que aprendi o mistério profundo, embora sutil, do segundo espelho dos relacionamentos: o espelho dos julgamentos que faço diariamente.
VOCÊ RECONHECE SEUS ESPELHOS?
Convido-o a examinar seus relacionamentos com aqueles que lhe são mais próximos. Em seguida, reconheça os traços e características que lhe irritam sem motivo e que acontecem aparentemente apenas para deixá-lo furioso. Depois de fazer isso, proponha a si mesmo a seguinte pergunta: Essas pessoas estão me mostrando a mim mesmo neste momento? É bem possível que estejam. Se estiverem, essa sensação vai lhe dar uma convicção 'visceral' instantaneamente. Entretanto, se a resposta for não, pode ser que a revelação seja de alguma coisa mais profunda e intensa do que o reflexo de sua pessoa — é possível que esteja à mostra o reflexo de seus hábitos de julgar as coisas. O mero reconhecimento e aceitação de que o espelho existe é o início do processo que vai levar à melhoria, à cura de seus julgamentos.
O EFEITO CASCATA DAS CURAS
No dia seguinte ao do meu reconhecimento do espelho de meus julgamentos, visitei um amigo que mora e trabalha nas proximidades de Taos Pueblo. Uma das comunidades indígenas mais antigas da América do Norte, esse lugar não é habitado há mais de 1.500 anos. Roberto (nome fictício) tinha uma loja em Pueblo mesmo, e era um artista e artesão tremendamente habilidoso. Sua loja tinha esculturas, filtros dos sonhos, músicas e bijuterias que tinham sido parte da tradição nativa séculos antes de haver uma 'América'. Quando entrei, ele trabalhava em uma escultura de cerca de dois metros de altura, no corredor atrás da loja. Depois de nos cumprimentarmos, perguntei como ia indo sua família e negócios, e conversamos amigavelmente por alguns instantes. Ele então também me fez perguntas e indagou o que tinha me acontecido ultimamente. Eu lhe narrei os eventos da última semana, as três pessoas e o dinheiro perdido. Depois de ouvir o que eu dizia, ele meditou um pouco e então me contou uma história.
'Meu bisavô', disse ele, 'caçava búfalos nas planícies ao norte do Novo México.' Sabia que ele estava falando de um passado distante porque, tanto quanto soubesse, já há muitos anos não havia mais búfalos naquela parte do Estado. "Antes de morrer, ele me deu sua posse de maior valor: a cabeça do primeiro búfalo que tinha caçado quando jovem." Roberto continuou me contando como essa cabeça de búfalo também tinha se transformado em um tesouro para ele. Depois que seu bisavô falecera, a cabeça do búfalo era a única relíquia tangível que o ligava à herança de seu passado. Um dia Roberto recebeu a visita da dona de uma galeria de arte da cidade vizinha. Encantada com a beleza da cabeça de búfalo, ela perguntou se poderia usá-la para completar o mostruário de sua galeria, com o que ele concordou. Depois de algumas semanas, como Roberto ainda não tinha notícias da amiga, resolveu visitá-la para ver como ela estava se saindo. Para sua surpresa, quando ele chegou à galeria, não viu nada. As portas estavam fechadas, as janelas cobertas, e a loja tinha se retirado dos negócios. A dona da galeria e a cabeça de búfalo tinham ido embora. Roberto parou com sua escultura e me encarou tempo suficiente para que eu percebesse como ele tinha ficado magoado.
'O que você fez?', perguntei. Esperava ouvir como ele tinha procurado seguir a trilha da dona da galeria e recuperado sua preciosa lembrança. Quando seus olhos encontraram os meus a sabedoria de sua resposta não foi ofuscada pela sua simplicidade: 'Não fiz nada, porque ela terá que viver com o que fez..'
Saí de Taos Pueblo naquele dia pensando nessa história e no significado que ela poderia ter em minha vida. Mais tarde, naquela semana, comecei a explorar as opções legais de que dispunha para recuperar pelo menos uma parte do dinheiro desaparecido de minha conta. Rapidamente percebi que, ainda que tivesse uma boa causa em mãos, tinha pela frente um longo e custoso processo. Devido à natureza do que tinha acontecido, eu seria obrigado a encaminhar o caso para a esfera criminal e não para a cível. Desse ponto em diante, ficaria totalmente fora do meu alcance e, se a mulher fosse condenada, ela poderia ir para a prisão. E tudo isso ocorria com relação a alguém com quem eu tinha mantido um relacionamento emocional prolongado, mas com quem não me sentia mais ligado, de forma alguma. Enquanto considerava as opções, pensei uma vez mais na conversa que tinha tido com meu amigo em Pueblo e das lições que tinha absorvido.
Não foi preciso muito tempo para que concluísse sobre o que devia fazer, e senti imediatamente que era a atitude correta: decidi não fazer nada. Quase que imediatamente aconteceu algo inesperado — cada uma das três pessoas que espelharam meus julgamentos começaram a sair da minha vida. Eu não estava mais com raiva delas e já não guardava mais nenhum ressentimento.
Comecei a sentir uma estranha sensação de 'inexistência' com relação a todas as três. Não houve nenhum esforço consciente de minha parte para bani-las. Depois de ter redefinido o que tinha acontecido entre nós, realmente considerando o que havia sido cada experiência, não o que os meus julgamentos haviam me levado a crer que tinham sido, simplesmente não havia mais resquício algum dessas pessoas em minha vida. Cada uma por sua vez começou a se desvanecer do dia-a-dia de minhas atividades. Subitamente caiu a quantidade de telefonemas, cartas delas e também de pensamentos dedicados a elas durante o dia. Meus julgamentos tinham sido o ímã que conservara aquelas relações em seus respectivos lugares.
Embora esse novo curso dos acontecimentos fosse interessante, depois de alguns dias algo ainda mais intrigante e mesmo um pouco curioso começou a acontecer. Compreendi que existiam outras pessoas que tinham estado em minha vida durante muito tempo que também tinham começado a desaparecer. Mais uma vez, não houve nenhum esforço consciente da minha parte para terminar essas relações; elas simplesmente não tinham mais sentido. Em uma rara ocasião em que conversei com um desses indivíduos, eu me senti tenso e artificial. Onde antes tinha havido um terreno comum agora só havia estranheza. Quase imediatamente depois de ter notado a mudança nesses relacionamentos, fiquei consciente do que, para mim, tratava-se de um novo fenômeno. As relações que saíram da minha vida fundamentavam-se no mesmo padrão trazido pelas três pessoas, e esse padrão era o do julgamento.
Além de ser o ímã que me trouxera os relacionamentos, meu hábito de julgar tinha também sido a cola que conservara as relações. Na ausência do julgamento, a cola se dissolvera. Notei o que parecia ser um efeito cascata: uma vez que o padrão fora reconhecido em um lugar — em um relacionamento —, seu eco foi se tornando menos audível em muitos outros níveis de minha vida."
( Gregg Braden, no livro "A Matriz Divina")