23/02/2026
UM DESABAFO - O MACHISMO FEMININO -
HERANÇAS, ESTRATÉGIAS E A CORAGEM DE ROMPER COM ESTRUTURAS ANCESTRAIS
Acordei melancólica hoje, os acontecimentos nos dois primeiros meses de 2026 e situações que surgem na minha vida, envolvendo mulheres, me deixaram mais reflexiva do que costumo ser. E a única forma que conheço de elaborar esse emaranhado de pensamentos é falar ou escrever.
Tenho me cobrado o quanto realmente estou contribuindo para despertar consciência e atualizar conceitos nos contextos onde eu transito: grupos terapêuticos, consultório e sala de aula. Hoje quero me permitir dar o grito desta minha alma cansada.
Escrevi um texto sobre “Machismo Feminino” há alguns anos, mas agora entendo que ele pede atualização — não apenas no vocabulário, mas na consciência do que eu mesma fui percebendo, vivendo e desvendando.
Preciso deixar claro que não pactuo com movimentos grotescos, com um feminismo distorcido, nem com uma visão estereotipada da mulher. Alguns conceitos amplamente divulgados me causam até medo. Seres humanos — homens e mulheres — precisam ser educados para a autorresponsabilidade e a autossustentabilidade.
Quero falar do que chamo de “machismo feminino” não como crítica ou acusação às mulheres, mas de um lugar de profunda compreensão do que todas viveram, independentemente da geração à qual pertencem. Lembremos que somos educados por seres humanos.
Machismo feminino é um conjunto de estratégias de sobrevivência aprendidas e ensinadas pelas mulheres, que atravessa gerações. Estratégias estas que, por terem sido úteis em contextos de risco e falta de escolha, acabam perpetuando conceitos que muitas vezes são a raiz de disfunções nos relacionamentos, nas famílias e na forma como homens e mulheres aprendem sobre amor, relacionamento e responsabilidades.
Exemplos de estratégias de sobrevivência:
1. Cale-se sempre; não tente argumentar — homens não conseguem entender.
2. Não reclame; ruim com ele, pior sem.
3. A mulher sábia edifica sozinha o seu lar.
4. Reze muito para que ele melhore.
5. Releve… homens são assim.
6. Homem não é fiel; não se iluda.
7. O que ele não encontrar em casa, vai procurar na rua.
8. Não o irrite; deixe-o descansar e sossegar — ele trabalha muito.
9. Podia ser pior; se ele não te bate, já está muito bom.
10. Pelo menos ele não gasta o dinheiro com as “p…”.
11. Quando ficar mais velho, vai se acalmar.
12. Um dia ele vai enxergar o teu esforço.
13. Olha só que triste é envelhecer sozinha… releve.
14. Teus filhos um dia saberão o teu valor.
15. Você pode até ter cuidado da casa e educado os filhos, mas lembre-se: tudo o que foi adquirido é dele; na hora da separação, a tendência é você ficar com muito pouco — e com mais responsabilidade pelos filhos.
Eu, Cris, sou fruto da geração Baby Boomer, formada por indivíduos que cresceram no pós-guerra, atualmente na faixa de 60 a 80 anos, e que foram ensinados a valorizar a estabilidade, a ética de trabalho rígida e o foco na família (as necessidades do grupo precedem as necessidades individuais).
Mulheres aprendem com mulheres e eu fui educada por algumas muito fortes e resilientes da Geração Silenciosa (1928–1945), a chamada “Geração Esquecida”: mais reservada e focada em carreira do que em mudanças sociais, ao contrário de gerações posteriores.
Essas mulheres e homens cresceram em tempos de escassez e incerteza, o que gerou uma mentalidade conservadora, por vezes muito rígida e hipócrita, e também apegada às conquistas materiais e de status. Muitos não se separavam para não precisar dividir seus bens.
Mas eles sabiam respeitar hierarquia e valorizavam a lealdade, o famoso “fio do bigode”.
Essas pessoas viveram o auge do rádio, e as notícias e novidades chegavam por essa via e também através dos jornais, muito antes da popularização massiva da televisão.
Essas mulheres da Geração Silenciosa — minha mãe, minhas avós e uma madrinha que ocupa um lugar importantíssimo no meu coração — me ensinaram sobre autorresponsabilidade e autossustentabilidade, resiliência e foco nas necessidades da família. Foram (algumas ainda são) um exemplo de amor, força, garra, desprendimento e determinação.
Elas não sabiam tudo sobre o universo feminino — até porque ninguém nasce sabendo o que foi proibido conhecer, mas algumas lições ficaram muito marcadas em mim:
- Somente quem serviu de “colchão” pode opinar (sobre as dificuldades na intimidade dos casais);
- Uma cruz se faz com dois paus (sobre os conflitos dos casamentos);
- Não atire pedras sobre o telhado alheio se o teu é de vidro;
- Cuide da tua grama e não a compare com a grama do vizinho;
Aquilo que não aprendi com elas, precisei aprender com outras mulheres que também foram muito importantes para mim: mulheres que me ensinaram educação formal, verniz social e o lúdico do feminino — a leveza, a beleza, a sensibilidade e, principalmente, a conexão com o sagrado em cada uma de nós: o corpo, o s**o, a maternidade, os ciclos, a intuição, a potência.
Com a maturidade, fui compreendendo algo desconfortável: em função do desconhecimento delas — e de uma cultura machista ancestral, herdada e perpetuada — o comportamento servil e sacrificial de muitas gerações de mulheres ajudou a formar e manter mais uma geração de homens praticantes daquilo que elas mesmas lamentaram e condenaram, mas que continua socialmente justificado, aceito e tolerado.
Em seis décadas de vida, aprendi muito sobre o que as mulheres podiam e, principalmente, sobre o que não podiam fazer para não serem rejeitadas, desqualificadas e desvalorizadas. Ouvi de homens e mulheres inúmeros conceitos sobre como era — ou como deveria ser — o comportamento e a personalidade de uma “boa” mulher e que tipo de mulher um homem deveria buscar para “constituir família”.
Adjetivos como caprichosa, discreta, recatada, fiel e compreensiva vinham embalados como virtudes, mas muitas vezes mascaravam abusos de diversas ordens. E a “boa mulher” precisava estar pronta para suportá-los em nome da moral, dos bons costumes e da manutenção da família e do casamento. Caso contrário, vinha a sentença: “a culpa é dela”. Às vezes, até os filhos eram convocados para confirmar a condenação e afirmar, ela é louca, depressiva, insatisfeita, insuportável... mereceu o que recebeu.
Hoje quando recebo um “elogio” sobre ser forte e guerreira, fico muito desconfortável, isto não é qualidade, foi uma estratégia de sobrevivência. Tenho claro que o meu valor precisa estar naquilo que sou e não no que eu posso ofertar para as outras pessoas.
Me causa muita tristeza valer pelo que dou e não pelo que sou.
Uma das cenas que mais me marcou foi ouvir de uma mulher sábia e sofrida — por quem eu tinha muito amor e respeito, pela sua história de vida e pelo tanto que me ensinou sobre organização e administração doméstica — a seguinte “pérola”:
“Uma mulher preguiçosa ou desleixada, que não foi bem educada por sua mãe, que não cumpre suas obrigações de esposa (cuidados com a casa, marido e filhos), vai ter que apanhar do marido para aprender.”
Eu perguntei se isso valia também para as filhas dela, e ela respondeu:
“Eu eduquei minhas filhas para serem boas esposas e mães. Não terão que apanhar.”
Ouvi também desde a minha pré-adolescência:
• “Uma mulher ‘deflorada’ (palavra horrível) acabará não podendo fazer uma boa escolha; terá de se contentar com qualquer marido que a queira, para ‘tapar buraco’.”
• “Tem coisas de mulher e coisas de homem… não queira vestir as calças do homem… te conforma!”
• “Tu não precisas arranjar um emprego, trabalhar fora… só estudar, ficar em casa e ajudar a mãe no serviço de casa…”
• “Os homens só querem se aproveitar das mulheres… não coloque todas as frutas no balaio…”
Existem muitas falas — femininas e masculinas — que ainda ecoam dentro da minha cabeça:
• “Aquela inútil que nem para fazer uma comida para o marido serve… coitado do marido… olha só a roupa e os calçados dele… mal cuidado… hora destas aparece outra que cuide melhor dele e ele vai… aí ela vai aprender!”
• “Mulher tem que saber o seu lugar…”
• “Eu estava lá (naquela reunião) junto com os homens fazendo as coisas dos homens e as mulheres fazendo as coisas das mulheres… como tem que ser…”
• “Mulher não serve para isto, para aquilo… alguém precisa botar limite. O pai não colocou, agora sobrou para o marido.”
E é importante dizer: essas “premissas” também pesavam sobre os ombros das cascas masculinas. Porque o mesmo sistema que educa a mulher para servir educa o homem para mandar e exigir obediência e servidão cegos, além de cobrar muito caro dos dois. Um gera o outro, e ambos viram prisioneiros de papéis que não dão conta da complexidade humana.
Analisando tudo isso e respondendo, do meu “jeitinho Cris de ser”, a tantas verdades inquestionáveis, aprendi a usar a ironia e pergunto:
Além de menstruar, gestar, parir e amamentar no peito, tem mais alguma coisa que seja função exclusiva da mulher?
Por que um homem pode trair, explorar, ofender e humilhar e, ainda assim, continuar a ser considerado um bom pai perante a sociedade? E uma mulher que faça as mesmas escolhas — como será julgada?
Quando foi normalizado encontrar mulheres se reunindo diariamente para o “happy hour” nos bares da vida, ou nas praças, jogando cartas ou dominós para “espairecer”, e chegando em casa para encontrar janta pronta, roupa limpa, casa organizada e as necessidades dos filhos administradas?
E o futebolzinho da semana, independentemente das necessidades de manutenção da vida doméstica?
Sou avessa ao padrão educacional de “princesamento” das meninas — onde a beleza, o saber vestir-se e maquiar-se, seduzir e sensualizar ocupam o topo da lista de prioridades. Essa ilusão cobra um preço alto na vida adulta.
Acredito que, junto com os estímulos à beleza e aos cuidados femininos (que podem ser prazerosos, criativos e legítimos), é fundamental que a educação contemple autoconhecimento, espiritualização e cultura. Caso contrário, transformamos jovens em bibelôs: buscando um padrão “vendável” no disputado mercado da beleza — lindas por fora, vazias por dentro — investindo todas as suas fichas na aparência, no ter, no representar… acreditando que isso é vantagem “competitiva” sobre outras mulheres na “caça” ao parceiro ou parceira perfeitos.
E então o amor vira contrato de sobrevivência: de um lado, a fantasia do provedor “príncipe” ou “rei”; do outro, a promessa de uma “princesa” que será escolhida para ocupar-se apenas das próprias necessidades — como se isso fosse liberdade. Mas não é. É dependência fantasiada de destino.
Procurei orientar as meninas que passaram pela minha vida para o sentimento de liberdade e independência de crenças, mas com autorresponsabilidade sobre seus corpos e suas escolhas e com autossustentabilidade diante das consequências dessas escolhas. Pratiquei sempre o “desprincesamento”. Ensinei a buscar, como parceria afetiva, alguém para compartilhar a vida pelo amor — e não pela necessidade de ser bancada.
Tanto a filha que gerei no meu útero quanto as filhas que gestei no meu coração — afilhadas, sobrinhas e tantas outras — para todas elas procurei ser exemplo do cair e do levantar, do reconstruir quantas vezes fosse necessário, mas sem se manter prisioneira de um status de relacionamento por medo de não saber sobreviver sozinha.
Também acompanho algumas referências femininas pós-modernas, de aguda inteligência e senso crítico, cumprindo um papel fundamental de chacoalhar e questionar valores. Mas vejo, às vezes, um erro no “peso da mão”: ao denunciar a sociedade hipócrita e tóxica, algumas comunicam-se por uma fala agressiva, chula e vulgar — e acabam ocupando o mesmo lugar grosseiro que criticam, escancarando a intimidade como mercadoria e a sexualidade como descartável, repetindo por outra via o que por séculos feriu as mulheres.
Vivemos um tempo histórico de ajuste de contas. Mulheres conquistando espaços antes interditados, famílias de múltiplos formatos, relações homoafetivas exigindo respeito (ou ao menos tolerância social). É uma oportunidade real de nos permitirmos ser simplesmente humanos: consciências em cascas temporárias femininas que devem ser honradas, respeitadas e valorizadas — não por serem frágeis ou por precisarem de leis para existir, mas porque está evidente ao mundo que somos seres humanos cumprindo uma missão essencial neste plano de manifestação da consciência.
Quero honrar todas as mulheres que impactam diariamente a minha existência e agradecer por me ajudarem a viver em constante atualização — aprendendo a olhar a vida por outros ângulos e me permitindo revisitar a minha própria trajetória de mulher, em suas diversas fases e experiências.
Desejo muita lucidez a todas as pessoas que compreendem o verdadeiro papel das consciências em corpos femininos para a evolução deste planeta.
Cristina Navarro
Um ser humano feminino em constante construção!
Ancoradora das Filhas de Maria - Grupo Terapêutico Feminino
Guardiã da Oficina da Consciência® Espaço Humanista