31/12/2021
Além das tantas vezes em que Lya Luft me guiou pelos caminhos da escrita, houve uma em especial em que ela revelou sua palavra mágica, uma que recebera da sua mãe para se acalmar. Em sua partida, suponho que esta grande escritora tenha podido dispor dela para que os assustadores sussuros do fim soassem como rumores do bosque. Obrigado, Lya, por tanta poesia!
WALDRAUSCH
Uma palavra de abrigo
Certa ocasião, fazia papel de segundo violino para a escritora Lya Luft numa palestra. Escutando uma história da sua infância quase me perco da minha função. Sua prosa envolvente me embalava.
Ela estava no jardim de sua casa quando começou uma tempestade. Sentia a vegetação sinistramente agitada pelo vento, aquela inquietude da natureza que conhecemos, um tempo carregado de ameaças. A tempestade é um encontro menor com o caos, ergue-se como um monstro de ar, disposto a tirar tudo do lugar. No vento, que anuncia a água e os trovões, há uma gravidade, um redemoinho de urgência. É um momento de desamparo: dá vontade de correr para um abrigo, “estar dentro”, não importa do que.
Eis que mãe se aproxima da pequena Lya paralisada, os olhos azuis arregalados, abaixa-se e lhe sussurra em alemão, língua da sua infância: é o “waldrausch”. É o “rumor do bosque”, ela nos traduz, agora já crescida. A criança se acalmou, o medo transmutado em poesia. A ameaça do mau tempo tornou-se uma espécie de conto de fadas, assustador, mas fascinante, como um filme de terror, uma sinfonia angustiante, que nem por isso se deixa de escutar. Uma simples palavra pronunciada pela mãe fez a diferença. Deve ter sido assim que nasceu a escritora, ofício ao qual, aliás, se entregou depois de tornar-se mãe, não por acaso.
Lembro de uma amiga que me contava história avessa. Sua mãe sofria de inúmeros medos, pouco saía de casa, sobrecarregando-a com o cuidado dos irmãos menores. Dentre as ameaças do mundo, eram as tempestades os piores inimigos dessa mulher, momento no qual recolhia os filhos e abrigava-se com eles embaixo da mesa da cozinha.
Minha amiga cresceu corajosa, perseverante, padecia da sina dos primogênitos que podem contar pouco com os pais. A responsabilidade obriga-os a fazer-se fortes. Porém, ela sofria de uma dependência amorosa, da qual custou a se livrar: o ser amado era seu lugar seguro. Um grande e infelizmente fracassado amor foi para ela como a mesa que a mãe usava para se proteger das tempestades. Quão diferente teria sido se fosse uma mãe capaz de lhe deixar um sussurro no ouvido, para ser usado cada vez que o desamparo ameaçava: “é o rumor do bosque”.
Esse bosque persiste dentro de nós. Uma floresta de pensamentos, fantasias e pesadelos feitos de amor e morte. Em nossa turbulenta natureza interior, ventanias, cataclismos se armam periodicamente. Tanto sabemos disso que trememos a cada brisa sinistra, carregada de cheiros que vieram sem ser convidados. Quando as memórias de infância carecem do encanto necessário, sempre temos na ficção um lugar seguro para estar enquanto a tempestade passa, cumpre seu ciclo. Os artistas são aqueles que partilham suas metáforas, colocam seus bosques particulares ao pé do nosso ouvido. Quanto a nós psicanalistas, o tempo todo garimpamos essa palavra que permite lidar com a rude natureza da alma.
(foto de Mauro Vieira)