27/01/2026
I Know This Much Is True, minissérie da HBO, é uma obra densa, pesada e profundamente humana. Atravessa temas como violência, abuso, perdas, lutos, doença mental e relações familiares e amorosas, sem qualquer tentativa de suavização. Desde os primeiros episódios, já se impõe uma atmosfera sombria e angustiante.
Ao longo da narrativa, o sofrimento não diminui, ao contrário: se acumula. Quanto mais a história avança, mais os acontecimentos se tornam cruéis e difíceis de sustentar. Em muitos momentos, a sensação é de que não há saída, nem possibilidade de melhora. E talvez seja justamente aí que a série nos captura.
Entre tantas camadas possíveis de leitura, escolho olhar para a questão da paternidade.
Sigmund Freud (pai da psicanálise) nos aponta a importância da função paterna na constituição psíquica do sujeito, não apenas como presença concreta, mas como lugar simbólico que organiza pertencimento, limites e transmissão. Não saber quem é o pai, não saber de onde se vem, não se reduz a um dado biográfico. Na psicanálise, essa ausência diz respeito a uma falha na inscrição simbólica da filiação, capaz de intensificar a angústia e aprisionar o sujeito em estados de desamparo e repetição.
É significativo perceber como, no momento em que o personagem descobre quem é seu pai, algo se desloca. Não há redenção nem apagamento da dor, mas uma mudança psíquica. Um ponto de amarração que permite algum grau de elaboração e reorganização interna.
A relação com a psiquiatra também se apresenta como um espaço fundamental. Mesmo atravessado por limites, o vínculo terapêutico surge como possibilidade de escuta, sustentação e cuidado. O trabalho em saúde mental não salva, mas pode abrir frestas onde antes só havia repetição.
I Know This Much Is True é dessas obras que continuam depois que acabam. Ela ecoa, inquieta e convoca à tentativa de colocar em palavras aquilo que foi sentido.
No fim, quando tudo parecia perdido, o que se apresenta não é um final feliz, mas algo talvez mais potente: a possibilidade de reconstrução. Pequenos espaços para simbolizar, elaborar e seguir.
Um convite incômodo, mas necessário, à reflexão.