04/12/2019
Talvez só porque o mais comum e mais fácil para nossa natureza humana é ter medo e ficarmos presos ao que nos aprisiona e faz mal, ou quem sabe só porque estava pisando sem sensibilidade nas pétalas das tipuanas mortas no chão, o fato é que um pensamento tão rápido quanto ruim atravessou meu cérebro, ocupando-o de tal forma que meu corpo continuou se movendo apenas automaticamente. O pensamento era uma crítica às flores de plástico de uma loja por onde passo diariamente. Fiquei ruinzinha mesmo, presa a perguntas idiotas como que tipo de pessoa compra isso? Será que não pensa quanto custa ao meio ambiente esse lixo? (eu mesma não tenho nem ideia), mas continuei, fui à lua e voltei com meu ensimesmamento e só senti o coração voltar a bater em frente à loja. E o peso do mundo inteiro pairou sobre mim quando vi uma pessoa comprando as flores. A moça da loja, tão linda e delicada, explicava ao cliente que talvez fosse melhor embalar só parte das flores para não amassar. O homem sorriu sem dentes, um homem bem velho, talvez mais pobre do que velho, talvez mais frágil do que delicado, ele não chegava a estar eufórico, não havia energia excedente para isso, mas dava para ver que ele imaginava algo bom quando concordou com a moça, que era melhor carregar as flores aparecendo assim para fora, como se respirassem e não suportassem qualquer amasso.
E eu só pude conter uma lágrima e desejar que a destinatária das flores não fosse uma vaca como eu.
De qualquer maneira é dezembro e alheias a tudo isso, as tipuanas chovem flores.