07/01/2026
Há líderes políticos que governam a partir de projetos. E há os que governam a partir de feridas narcísicas, não apenas as suas, mas as que despertam e alimentam nas massas. O fenômeno Trump pode ser lido, sob a ótica psicanalítica, como a exploração calculada de pulsões primitivas: o apelo ao ódio, ao ressentimento, à fantasia de superioridade e à recusa do limite. Seu discurso não conversa com o eu adulto e responsável. Ele convoca o eu infantil: onipotente, ofendido, incapaz de tolerar frustração. E esse eu infantil, quando projetado sobre um líder, busca um “pai” que autorize o gozo sem culpa, o ataque sem reflexão, a destruição sem responsabilidade.
O que está em jogo aqui não é apenas política, mas o desmonte simbólico do que sustenta a vida em sociedade: a Lei. Não a lei jurídica, mas o limite psíquico que diferencia desejo de realidade, impulso de ação. Quando Trump banaliza a mentira, demoniza o diferente e trata a violência como espetáculo, ele legitima o retorno do que há de mais arcaico nas subjetividades: a pulsão de morte, a vontade de anular o outro, o gozo em ver o mundo arder. É a tentativa de substituir a lei simbólica pelo capricho do líder, um convite constante à regressão coletiva.
E isso não f**a no palco da política internacional. Isso escorre para a vida das pessoas comuns. A instabilidade mundial produzida por lideranças assim se traduz em insegurança psíquica cotidiana: o medo constante, a sensação de que nada é confiável, o colapso na crença de que existe um mínimo de ordem que nos protege. O indivíduo passa a viver num mundo em que o adulto social é desautorizado e o infantil agressivo é encorajado. A ansiedade cresce. O ódio encontra saída. O laço social se rompe, e cada um passa a existir contra o outro, nunca com o outro.
Trump não é “apenas” um político controverso. Ele é a encarnação de uma lógica que transforma o poder em palco para feridas narcísicas e convoca a humanidade a regredir. No fim, a verdadeira ameaça à estabilidade mundial não é um indivíduo isolado, mas a massa que, identif**ada a ele, encontra permissão para abandonar o pacto civilizatório e ceder ao pior de si.