28/10/2021
A psicanálise nos ensina que um sintoma, uma modalidade de sofrimento, muitas vezes é o que há de mais verdadeiro em alguém.
Por isso, longe da pretensão de eliminá-lo rapidamente, ele é o fio condutor de uma análise.
Como escreveu a lacaniana Clarice Lispector (ironia, tá? Clarice era escritora e nunca estudou psicanálise, embora tenha feito análise com dois analistas [e dizem que obteve ótimos efeitos]):
"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro."
Um sintoma é o que alguém pode fazer de melhor com seu sofrimento, é preciso respeitá-lo.
É bem verdade que uma análise causa vários efeitos terapêuticos e dentre eles, muitas vezes, está a eliminação de um sintoma.
Mas isso acontece como consequência da desconstrução de identificações imaginárias, como resposta à construção de uma novidade - e não como objetivo do tratamento.
A psicanálise não é um tratamento adaptativo, que visa adequar alguém ao seu meio. (Até porque, que loucura seria querer adaptar alguém a esse mundo insano que vivemos!)
A direção do tratamento está em dar dignidade ao que há de mais singular em cada um. E isso não se replica e nem se compara.
Um tratamento psicanálitico busca dar dignidade àquilo que cada um tem de mais inadaptável.