26/02/2026
Há algo profundamente incômodo nessa frase.
Porque ela nos retira do lugar confortável da vítima absoluta.
Lacan não está falando de culpa moral.
Não está dizendo que somos responsáveis por tudo o que nos acontece.
Mas pela posição que ocupamos naquilo que nos acontece.
A mesma cena pode se repetir.
A mesma queixa pode retornar.
O mesmo tipo de relação pode se formar.
E, ainda assim, algo nosso insiste ali.
Responsabilidade, na psicanálise, não é punição.
É implicação.
É reconhecer que, mesmo atravessados pela história, pelo Outro, pelo desejo alheio, ainda assim tomamos uma posição — consciente ou não.
O sujeito não controla tudo.
Mas responde desde onde fala, ama, escolhe, recusa, repete.
Assumir isso não é se condenar.
É deixar de se esconder.
Talvez o ponto não seja “por que isso acontece comigo?”
Mas:
de que lugar eu participo disso?
É nesse deslocamento que começa a análise.