24/05/2024
Seu vazio tocou no meu vazio. Meu vazio comeu o seu vazio. Agora o seu vazio está em mim. E o meu vazio está cheio
Do seu vazio.
E o seu vazio está vazio Do meu vazio.
Há algo pior do que estar Vazio de vazios?
Ana Suy, “Vazio de Vazios” (em “Não Pise no meu Vazio”, 2023)
A pergunta intrigante sobre se há algo pior do que estar vazio de vazios abre espaço para uma discussão profunda sobre a natureza do vazio em nossas vidas. O termo "vazio" tem sido tão amplamente utilizado que muitas vezes parece perder seu signif**ado genuíno, tornando-se apenas uma palavra vazia em si mesma. Quando dizemos que sentimos um vazio, isso se torna apenas mais um sintoma em meio à miríade de diagnósticos contemporâneos.
Quando o luto (da perda) não é superado, a melancolia se instala. Nesse estado, o sujeito muitas vezes não consegue identif**ar o que perdeu, mas experimenta uma profunda perda de interesse em si mesmo, devido à identif**ação narcísica com o objeto perdido. Isso leva a uma sensação de vazio e desinteresse, onde o processo simbólico é interrompido e a pessoa f**a atormentada pela perda que afeta diretamente sua própria identidade.
No texto "Luto e Melancolia", Freud observa que essa instância crítica se torna ainda mais severa e cruel no melancólico, pois está ligada ao objeto perdido. Assim, o ódio pelo objeto perdido se transforma em auto-ódio, alimentando um superego destrutivo, o que se reflete no discurso de culpa característico dos pacientes depressivos. Freud desenvolve essa concepção mais amplamente em 1923, onde introduz o conceito de id, ego e superego. O id representa nossos impulsos inatos e instintivos, enquanto o superego é a instância crítica que impõe as regras e normas sociais. Ele compara essa dinâmica com um cavaleiro tentando controlar um cavalo desgovernado, onde as rédeas representam o superego. Essa formulação permite uma compreensão mais profunda das doenças mentais, como a depressão e quadros psicóticos, onde o sujeito é atormentado por cobranças internas excessivas.
Quando nos recusamos a enfrentar a culpa e a tristeza, evitando experienciá-las, recorremos a defesas como a mania. Essa defesa envolve não se permitir sentir a dor associada à culpa, buscando distrações e atividades superficiais para evitar o enfrentamento das emoções. No entanto, se não lidarmos com essa dor de forma apropriada, ela pode se acumular e se manifestar de maneira avassaladora no futuro, prejudicando nosso equilíbrio emocional. É importante reconhecer que a tristeza faz parte da experiência humana e é natural sentir-se triste diante de perdas signifiativas, como o fim de um relacionamento, a morte de um ente querido ou a perda de um emprego. No entanto, há uma tendência atual de medicalizar excessivamente essas emoções, rotulando-as como depressão. Embora a tristeza persistente e paralisante seja motivo legítimo de preocupação, é essencial permitir-se vivenciar e processar essas emoções sem recorrer imediatamente à medicalização.
Cuidem dos seus vazios...