08/09/2025
Longos são os meus anos de atuação tanto na psicoterapia,como na psicopedagogia e, por mais experiências profissionais que eu tenha e tenho vivido,por mais participações em congressos, estudos, cursos para o meu aperfeiçoamento, ainda encontro novas descobertas neste meu percurso com a infância e adolescência.
Recentemente,revisitando relatórios,desenhos,construção de histórias,registro de atendimentos observei como é frequente no discurso dos adolescentes a referência aos seus relacionamentos com as avós. Já nos primeiros contatos revelam que, muitas vezes, pegam suas coisas, mochila escolar ou só mesmo a roupa do corpo e vão passar uns tempos na casa delas. Porém , a intenção - destes meninos e meninas por volta dos 12 aos 16 anos com quem mantive uma relação terapêutica - não é mais saborear o chocolate antes do almoço, fazer uma bagunça na sala de visitas e, nem agora como adolescentes, poder dormir até o meio-dia, ficar sem fazer nada ou ter a permissão para permanecer no celular até perto da madrugada.
Então, o que buscam ali?
A Escuta.
Desvendo isto ao ouví-los relatar o conteúdo e o modo como se dão suas conversas com elas, literalmente, dizendo :”minha avó me escuta”.Mesmo que algo semelhante ocorra no convívio com os pais , geralmente, o objetivo é educar, o que não deixa de ter sua importância.
Entretanto, a escuta da avó é outra.
É aquela que – exclusivamente pelo sentir e com total desconhecimento de teorias e técnicas psicológicas -proporciona uma abertura para a expressão da pessoa, da subjetividade, individualidade provocando o acesso ao processo de amadurecimento e um princípio de elaboração das vivências inerentes a esta fase da vida.
Evidentemente, este momento entre a avó e o neto adolescente é repleto de afeto, paciência, tempo disponível identificados e sentidos através daquela específica linguagem descrita na obra Fenomenologia da Percepção de Merleau-Ponty quem nos diz:
“Trata-se de uma linguagem essencial para a percepção do outro...Na experiência do diálogo constituí-se um terreno comum entre outrem e mim,meu pensamento e o seu formam um só tecido...somos um para o outro colaboradores em uma reciprocidade perfeita, levando-nos a coexistirmos através de um mesmo mundo. Neste diálogo eu apreendo os pensamentos de outrem que me faz arrancar pensamentos que eu não sabia possuir... e , assim, o meu interlocutor me faz pensar.”
Até onde alcança meu entendimento de estudos e leituras percebo que esta reflexão oferecida por Merleau-Ponty está contida na escuta destas avós,possibilitando aos netos ressignificar seus conflitos,angústias, frustrações, inseguranças,sonhos,projetos de vida. Existe,aqui, uma outra questão a sinalizar. É que a compreensão de tal acolhimento, cuidado não se restringe à referência teórica já assinalada. Há, também, um desconsiderar das idéias preconcebidas e deterministas de que a adolescência é , sempre, conflitos, problemas,transtornos, distúrbios,depressão,suicídio, ansiedades,envolvimentos ilícitos sem deixar,é claro,de estar ciente de que estes fatos são uma realidade.
Isto parece indicar a presença de uma sabedoria e sensibilidade das avós para a escuta em pauta aproximando-se, assim, do sentido do compartilhamento realizado por estes meninos(as) que revelam necessidades de saber como tomar uma decisão, fazer uma escolha, melhorar as relações familiares e pessoais,amenizar seus sofrimentos diante das raivas, medos e outras emoções, enfim, um adolescer menos medicamentoso , menos centrado nas desorganizações cerebrais/neurológicas e mais atento para as questões intrínsecas e afetivas .
Finalizando, questiono se,nós,profissionais da saúde mental e da educação não estaríamos pouco divulgando aos jovens sugestões de incentivos, modelos, atitudes, vivências afinadas com os seus interesses , motivações e com características construtivas .
Maria Cristina C. Ricardi