ENXAQUECA é o nome da minha inimiga
Ela se aproximou de mim pela primeira vez na época da faculdade, chegou sorrateira, em forma de luz. Era a aura de enxaqueca, que se caracteriza por fenômenos sensoriais (envolvendo sentidos como por exemplo a visão) e/ou motores (envolvendo o movimento dos músculos) temporários, durando 15 a 60 minutos normalmente. No meu caso, a aura de enxaqueca veio em forma de “fenômenos sensoriais” com distúrbios visuais do tipo cegueira parcial, visão de pontos luminosos semelhantes a lanterninhas, vagalumes e “flashes” que brilham e piscam ( assumindo, eventualmente, formas em zigue-zague móveis ao longo do campo visual), começando no centro da visão e expandindo-se para os lados, afetando mais um lado do que o outro (no meu caso, sempre mais o olho esquerdo do que o direito), evoluindo para pontos cegos tanto na visão central como na visão lateral, de modo que a visão fica quase que totalmente comprometida. Já cheguei a perder a visão unilateralmente (5 a 10 minutos) algumas vezes, e houve uma ocasião em que, por uns 5 minutos, perdi a visão bilateralmente (foi um pesadelo). Embora essas sensações sejam sentidas nos olhos, o problema está, na realidade, ocorrendo dentro do cérebro. Nem sempre tenho aura antes de uma enxaqueca e igualmente, nem sempre tenho enxaqueca depois de uma aura! Posso ter enxaquecas totalmente debilitantes sem que tenham sido precedidas por auras visuais e posso ter uma aura visual sem ter uma enxaqueca clássica (assim entendida como cabeça latejante, unilateralmente, no meu caso o ¼ da cabeça, parte frontal, do lado direito) logo após. Nesses casos - aura visual sem enxaqueca “clássica” - depois da aura (que dura de 15 a 45 minutos), sinto uma grande “ressaca”: fraqueza no corpo, lentidão de pensamento, cansaço, irritabilidade, fala lenta e uma sensação de anestesia no corpo que é muito difícil de explicar. Mas tudo, tudo, é tão ruim, forte e incapacitante que quando ela (a aura) finalmente vai embora é como se eu tivesse sido atropelada por um caminhão (mas eu fico sentido a presença dela, como se fosse um fantasma prestes a vir me assombrar de novo). Apesar da curta duração, elas podem resultar em um acidente vascular cerebral, o que os médicos que eu já consultei disseram ser um evento muito, muito raro, mas não impossível O AVC da enxaqueca se caracteriza por uma irreversibilidade da aura, chamado “infarto enxaquecoso”. Então, toda vez que ela, a aura, chega, eu me recolho - tenho que me recolher, se eu estiver no trabalho vou para o banheiro – sento, fecho o olho (o que não ajuda muito pois continuo vendo os volteios de luzes em zigue-zague bem "dentro" dos meus olhos) e espero o pior chegar. Até passar são minutos, que parecem horas, de angústia!)
Tensão, ansiedade, stress, alimentação irregular e ausência de atividade física regular foram os primeiros gatilhos. A inimiga chegava sempre que eu me sentia no limite de minhas forças físicas e mentais e permanecia ao meu lado por 3, 4 dias. E, assim, há 20 anos sofro crises horríveis de enxaqueca. Não sei de quem herdei - sei que é o tipo de herança que ninguém quer receber. Com o passar dos anos, ela foi piorando em intensidade e em tempo de duração. E não há remédio que dê jeito. Uma crise de enxaqueca pode ser disparada por vários gatilhos. Hoje em dia os principais gatilhos para a minha enxaqueca são: sono irregular (tenho 3 filhas pequenas), excesso de demandas (trabalho, casa, marido, crianças e tudo o que vem junto), ansiedade acima do limite (sou ansiosa desde que me conheço por gente), perfeccionismo doentio (!), excesso de açúcar (principalmente chocolate: tendo evitar mas cometo muitos pecados), queijos, adoçantes artificiais, comidas excessivamente temperadas, pimenta, salgadinhos industrializados e embutidos (ainda bem que desses não gosto e passo longe de qualquer forma), refrigertantes, ar-condicionado muito frio+exposição prolongada, alimentos frios (sorvete; picolé, não), comidas gordurosas (essas consigo evitar), vinho (não bebo mais), atividade física intensa (tipo: arrumar uma sala bagunçada por 3 crianças em 15 minutos, rs! Na verdade, qualquer uma!), TPM, muito café (normalmente tenho que ficar nuns 100 ml máximo/dia e de coador, de máquina não!!), qualquer doce com amendoim.
É fácil descrever a dor da enxaqueca. É uma daqueles dores que você pode descrever mesmo sem estar sentido. Começa com umas pontadas e um leve latejar - no meu caso, a dor atinge o ¼ da cabeça, parte frontal (próxima à têmpora), do lado direito, como já descrevi acima. A partir daí o latejamento aumenta de intensidade a ponto de eu perder a capacidade de raciocinar. Em mal consigo abrir os olhos, falar ou caminhar, o que dificulta, e muito, a vida de qualquer pessoa. Sentar na frente do computador? Escrever? Cuidar das crianças? Fazer tarefas domésticas? Trabalhar? É a morte. Posso até tomar remédio, mas a dor só melhora mesmo se eu me deitar no mais absoluto escuro, sem qualquer barulho. Não posso me mover. Qualquer movimento mais brusco faz a dor piorar. Não posso nem pensar (qualquer pensamento produz um latejar agudo). A dor é de chorar, de verdade. Mas eu não choro. Até porque, na maioria das vezes em que a enxaqueca chega ou eu estou trabalhando ou eu estou cuidando da vida doméstica (o que envolve cuidar de 3 crianças), então não dá pra chorar. Nem, tampouco, adotar medidas que ajudariam a minimizar a dor e fazê-la, senão ir embora, ao menos diminuir sua intensidade. Nos períodos mais críticos, eu tenho crises que duram até cinco, seis dias. Na TPM eu tenho crises sempre, invariavelmente a enxaqueca dá o ar da graça uns 3 dias antes da menstruação e permanece mais uns dois ou três dias, durante a menstruação (pois é, como se não bastassem as cólicas nesse período!). Há meses mais difíceis em que eu tenho a sensação de que eu passei o mês todo com enxaqueca! Porque às crises fortes se sucedem à periodos de calmaria, mas o fantasma da dor está ali, o tempo todo, em forma de latejares discretos que me lembram permanentemente do tormento. Se eu tomo muito analgésico? Não sei. Chego a tomar uns 15 compridos de Advil (Ibuprofeno) por mês. Às vezes eu alterno com Neosaldina. Outros remédios que já me foram receitados (tipo Cefalium), me provocam (descobri sozinha e sofrendo) uma reação chamada “reação extrapiramidal”, que se caracteriza por agitação (mental sobretudo), ansiedade, sensação de perda de controle (já ameacei, no hospital, arrancar o soro, quando me aplicaram esse medicamento na veia), agitação das pernas e braços, que não conseguem parar de se mexer!! Tratamentos? Já fiz com Amatto. Fiquei bem uns 6 meses depois comecei a sentir dor de cabeça (não enxaqueca), a cabeça inteira doía, sentia também muita irritação e insônia. Parei com o medicamento e a enxaqueca (que até tinha dado uma trégua) voltou. O médico agora me receitou um remédio chamado Depakote. Li a bula e fiquei sem coragem de tomar. Não sei o que é pior, se a enxaqueca ou um remédio desses. Essa é (parte) da minha saga. Gostaria de conhecer a história de outras pessoas e se seus “temporais enxaquecosos”, porque é bem possível que a enxaqueca me acompanhe pra sempre, mas se a gente tiver companhia nessa jornada, pode ser que fique mais fácil suportar.