19/08/2022
Ainda Nancy e Léo Grande
Como o filme dirigido por Sophie Hyde(“Boa Sorte, Léo Grande”) abre uma janela para o mundo, vamos falar mais sobre os temas que ele suscita. Dois aforismos lacanianos perpassam a obra: o primeiro é “a relação sexual não existe”, já referido em texto anterior. O segundo é “A mulher não existe”, enunciando que não há uma identidade como referência universal da Mulher, entretanto, elas existem, uma a uma, cada uma em sua singularidade, buscando uma posição no mundo a partir da sua constituição edípica, familiar.
A infância marcada pelos objetos amorosos que ocupam o lugar da mãe e a função do pai são determinantes de como uma menina constitui seu caminho para o feminino. Na adolescência, segunda onda da sexualidade, ela precisará se apropriar de seu corpo para experimentar sua iniciação como mulher desejante, e que se faça desejar, procurando identificações com outras mulheres e no olhar dos seus afetos.
Nestas veredas, a maternidade, muitas vezes, se apresenta como uma possibilidade com período limitado para acontecer. Ser ou não ser mãe comporta um exercício de castração inscrito no corpo de uma mulher, que padecerá ao final do prazo de validade dos efeitos da menopausa. Nesta etapa, tendo sido mãe ou não, uma mulher se defronta com um corpo sem as insígnias fálicas da maternidade, estando cara a cara com a mulher que se tornou e é. Tempo de retificação em que é preciso insistir na fertilidade erótica do desejo e na beleza da jovem maturidade.
Nancy com Léo descobre o poder do erotismo, após muitos anos de um casamento, marcado por uma vida sexual paupérrima. Uma das demandas que ela faz para Léo é realizar com ele uma lista de atividades se***is (s**o oral, dando e recebendo, posições determinadas) nunca experimentadas, como se fossem metas a serem alcançadas, e de fato esperadas por grande parte dos homens da geração dela, mas que, se e quando obtidas, podiam levá-los a constranger suas parceiras, incitando-lhes vergonha e inibição com seus próprios corpos, como se uma mulher ao se autorizar no exercício sexual fosse degradada do seu lugar.
Não há naturalidade no s**o, criar objetivos a serem atingidos é uma tentativa de consistir a relação sexual que, justamente como a mulher, não existe. Para o que não existe, só há uma saída, a invenção. Uma dose de dança, poesia colaboram, pois como diz Bataille: “o erotismo é o consentimento da vida até a morte.”
Ana Paula Gomes