17/01/2026
Janeiro chegou sem pedir licença, como chegam os meses que exigem reposicionamento. Não é um começo qualquer. É um começo que carrega o peso do que veio antes e, ainda assim, insiste em respirar.
A leitura de janeiro me encontra nesse lugar que não é mais o de antes, mas também não se consolidou como depois. Nem Lá Nem Cá de repousa exatamente aí: nesse território intermediário que tantas vezes tentamos negar. Vivemos pressionados a definir, a fechar ciclos com frases bonitas, a anunciar recomeços como se fossem lineares. Este livro não faz isso. Ele permanece. E permanecer, às vezes, é o gesto mais corajoso.
Ler um diário de perimenopausa é ler o corpo escrevendo a própria travessia. Não há neutralidade possível quando o tema é o tempo inscrito na carne. Há dias em que o texto pulsa como confissão; em outros, como perplexidade. E isso me interessa profundamente. Porque o corpo não se explica — ele se revela aos poucos, em ondas, em contradições.
Janeiro, com sua promessa de organização e metas, encontra aqui um contraponto necessário. Enquanto o mundo pede produtividade, esta leitura pede escuta. Enquanto se fala em acelerar, ela propõe reaprender o ritmo. Reaprender o corpo como casa do tempo, não como obstáculo a ser corrigido.
O que me atravessa nessa leitura não é apenas a temática hormonal ou biológica. É a pergunta silenciosa que ela sustenta: o que fazemos quando já não cabemos nas versões que criamos de nós mesmas? Quando o corpo muda o tom, quando o humor oscila, quando a energia não responde aos comandos antigos. O livro não oferece soluções prontas. Ele oferece companhia. E isso é raro.
Há algo de profundamente político em legitimar esse “nem lá nem cá”. Em reconhecer que há fases em que não se avança nem se retorna — apenas se habita o intervalo. Janeiro, então, deixa de ser um mês de arrancada e passa a ser um mês de observação. De reaprender a estar.
Entre páginas, anotações e pausas, essa leitura me convida a desfazer a ideia de que o corpo falha quando muda. Talvez ele apenas esteja sendo honesto. Talvez esteja dizendo: não dá mais para viver do mesmo jeito.
Ler em janeiro, para mim, não é planejar o ano. É afinar a escuta.