30/10/2025
Hoje olho para o espelho da cidade e vejo olhos que se fecharam ao outro. Vejo gritos que ecoam no silêncio do medo — o medo que gera o ato fatal. Neste instante, a crueldade brota não apenas do ódio explícito, mas da covardia que recusa ver, ouvir, agir.
Quando uma comunidade inteira é dilacerada pelo sangue, o que vemos, afinal, senão o fruto da fraqueza de alma que prefere destruir do que confrontar o próprio terror? O massacre que se abateu sobre o Rio não seria apenas um crime concreto — seria também o sintoma de um corpo social que descuidou das suas dores, das suas feridas, das suas vidas que clamavam para serem vistas.
Covardia: recuo diante do outro que sofre.
Crueldade: ataque implacável ao que é vulnerável.
E a cidade, como Montaigne advertia, transforma esse medo em brutalidade — porque o covarde que teme o outro, procura esmagá-lo antes que ele se levante.
Hoje, cada lágrima, cada silêncio, cada “não é comigo” é parte desse ciclo. E se quisermos interromper esse ciclo, devemos começar por resgatar a coragem — não a valentia estúpida, mas a coragem de cuidar, de acolher, de resistir ao fechamento do olhar.
Que a vida não se entregue à covardia, para que, juntos possamos cultivar o que é oposto: a presença, o escutar, a solidariedade.