29/05/2025
O Perigo da Abertura de Cursos Médicos Sem Estrutura Clínica Adequada: uma reflexão à luz da Epistemologia Genética
Nas últimas décadas, o Brasil tem assistido a uma expansão significativa no número de cursos de medicina. Embora o aumento da oferta possa ser interpretado como um avanço no acesso à formação médica, é preciso ponderar criticamente sobre as consequências de se abrir cursos sem que haja uma infraestrutura clínica adequada, que garanta aos estudantes contato efetivo e variado com casos médicos reais.
Sob a perspectiva da Epistemologia Genética, proposta por Jean Piaget, a aprendizagem ocorre a partir de um processo construtivo, sequencial e progressivo, no qual o sujeito interage com o meio, assimila novas informações e acomoda seu conhecimento prévio, atingindo níveis cada vez mais elevados de desenvolvimento cognitivo e moral. Essa concepção tem profunda ressonância com as necessidades específicas do ensino médico.
O aprendizado da medicina não se limita à aquisição teórica de conceitos, mas exige a vivência concreta de situações clínicas reais, em ambientes diversos e complexos. Cada paciente, com suas particularidades, representa um estímulo à reorganização do conhecimento, forçando o estudante a sair do conforto das regras gerais e a aplicar seu raciocínio a situações novas, muitas vezes imprevisíveis. É justamente essa diversidade que alimenta o desenvolvimento da competência clínica, da tomada de decisão ética e da autonomia profissional — aspectos centrais da formação médica.
Ao se abrir cursos médicos em instituições que não oferecem um hospital de ensino com ampla casuística, corre-se o risco de limitar a formação a modelos superficiais e mecanicistas. O estudante se vê privado da experiência essencial de confronto com a complexidade da prática médica, restringindo-se a exercícios teóricos ou simulações que, embora úteis, jamais poderão substituir a vivência concreta com pacientes reais.
Esse cenário promove uma formação empobrecida, na qual o raciocínio clínico torna-se frágil e a habilidade prática insuficiente. A ausência de uma ampla exposição clínica impede a plena realização do processo de assimilação e acomodação descrito por Piaget, condenando o estudante a um estágio de desenvolvimento incompleto, incapaz de lidar com as exigências da prática médica contemporânea.
Mais grave ainda é o prejuízo ao desenvolvimento moral e ético. A Epistemologia Genética destaca que o crescimento intelectual está intrinsecamente associado ao desenvolvimento social e moral. No ensino médico, isso significa aprender a lidar com o sofrimento humano, compreender as angústias dos pacientes e tomar decisões que vão além da técnica, incorporando valores éticos, responsabilidade e empatia. Sem o contato direto com essas realidades, o futuro médico corre o risco de se formar tecnicamente despreparado e humanamente insensível.
Além disso, a restrição no contato com a diversidade de casos clínicos compromete a construção da autonomia profissional. O pleno desenvolvimento do pensamento operatório formal, caracterizado pela capacidade de abstração, formulação de hipóteses e tomada de decisões em contextos incertos, depende da prática reiterada em situações reais, sob supervisão qualificada. A ausência desse processo compromete não apenas a competência técnica, mas a segurança do paciente, pilar fundamental do cuidado em saúde.
Portanto, à luz da Epistemologia Genética, a expansão indiscriminada de cursos médicos, desprovida de uma estrutura clínica robusta, não apenas fere princípios pedagógicos fundamentais, mas ameaça a qualidade da formação médica e, em última instância, coloca em risco a segurança e a dignidade do atendimento prestado à população.
A formação de médicos exige tempo, recursos e, sobretudo, um ambiente propício à interação ativa com a prática clínica. Sem isso, corremos o risco de formar profissionais incompletos, incapazes de responder de forma adequada aos complexos desafios que a medicina exige.
É urgente que as políticas educacionais considerem não apenas a quantidade, mas sobretudo a qualidade e a integralidade da formação médica, garantindo que a construção do saber médico se realize, como propõe Piaget, através de uma interação rica e progressiva com o mundo real, em benefício dos estudantes, dos pacientes e da sociedade.