27/11/2025
Assistindo ao novo Frankenstein, algo se revelou com força: a criatura não é apenas um experimento que deu errado, ela é a materialização dos monstros internos do próprio Victor, aquilo que ele tentou negar dentro de si, mas que encontrou uma forma de existir.
Na ânsia de criar o perfeito, Victor junta partes que acredita serem nobres, como se a perfeição pudesse protegê-lo de suas próprias dores. Mas perfeição demais sufoca, e a tentativa de eliminar o que é humano, imperfeito e frágil cria justamente o contrário, um monstro.
A raiz dessa obsessão aparece na relação com o pai, na cobrança, no peso da expectativa, no imperativo de ser impecável. O superego freudiano ganha corpo ali, uma voz interna que exige sempre mais, que não aceita falhas, que transforma afeto em pressão. Para atender a esse ideal impossível, Victor recalca partes inteiras de si, enterra suas vulnerabilidades, seus medos, sua humanidade.
Mas Freud nos lembra que tudo o que é reprimido retorna.
A criatura é exatamente isso, o retorno do recalcado, a dor que foi silenciada, a emoção que ele expulsou da própria alma, a sombra que tomou forma quando não havia mais onde se esconder. Por isso o monstro o persegue, não por maldade, mas porque aquilo que negamos em nós mesmos sempre volta pedindo reconhecimento.
Victor foge por anos, e nós também fugimos. Fugimos do trauma, da culpa, do que nos fere, mas fugir só adianta o encontro.
E então chega o momento inevitável, o instante em que Victor precisa olhar nos olhos do monstro e admitir que ele é uma parte sua, a cura começa exatamente aí, no gesto de parar, respirar e acolher aquilo que antes causava pavor, no ato de amar o que antes chamamos de feio.
Esse é o ponto, somente quando oferecemos amor à nossa própria sombra, ela finalmente encontra descanso, e nós também.
No fim, Frankenstein não fala de horror, fala de humanidade, fala da integridade que nasce quando deixamos de lutar contra nós mesmos, fala de aceitar nossas falhas, nossos afetos escondidos, de amar justamente aquilo que tentamos esconder.
Porque o monstro nunca foi o outro, o monstro sempre foi a parte de nós que pedia, silenciosamente, para ser vista.
Verônica Valente