19/08/2019
“Faça as pazes com a balança.” Li essa frase em uma propaganda que enaltecia o emagrecimento. Fiquei triste e frustrada por lê-la e decidi então partilhar o que penso a respeito, não só pelo fato de ser nutricionista, mas por prezar pelo sentimento de humanidade e alteridade que precisamos cultivar por nós e pelo próximo.
Olha, você não precisa fazer as pazes com a balança ou com qualquer outro tipo de objeto inanimado. Isso não faz sentido nenhum. Antes de tudo, você precisa fazer as pazes com você mesmo.
Do âmago do seu ser até a sua superfície da sua pele, existe um caminho lindo e infinito, que nem você mesmo é capaz de desbravar totalmente. Esse caminho é o que registra quem você verdadeiramente é, e isso não se limita definitivamente a suas características externas. Portanto, não se prenda a superficialidade da sua aparência, porque você não é o corpo que veste, você é muito mais que isso. Não se prenda aos dígitos de uma balança porque um número isolado não diz nada sobre você. Não determinada sua beleza, sua capacidade intelectual, sua felicidade, seu sucesso e muito menos sua saúde.
Infelizmente nós vivemos em uma sociedade que cria e idealiza padrões estéticos que são associados, de forma muito equivocada, a beleza, a felicidade, a sucesso, a saúde. E na busca por esse padrão, as pessoas estão adoecendo fisicamente e psicologicamente. Fisicamente por fazerem sacrifícios desnecessários só para terem um corpo considerado ideal. E psicologicamente, porque esse corpo perfeito não existe, e por isso não se consegue alcançá-lo. Claramente isso gera uma frustração muito grande, cria-se um sentimento de inferioridade, de incapacidade, de tristeza por não conseguir.
Quem não está dentro do padrão sofre cada vez mais, as mulheres principalmente. Sofrem quando leem e ouvem afirmações que dizem: “Mulheres querem vestir 36.” ou “Emagreça e fique linda para o verão.” ou ainda “Faça as pazes com a balança.” São esses tipos de comentários que influenciam negativamente na percepção que construímos sobre o nosso próprio corpo. Muitas pessoas se enxergam fisicamente diferentes do que elas realmente são, justamente por causa dessa pressão social.
Imagine o quão cruel é para uma pessoa que tem dificuldade em perder peso, conviver com todo esse bombardeio de mensagens, que dizem a todo momento para ela ser o que ela não consegue. A pessoa se frustra cada vez mais, passando a olhar para o próprio corpo com vergonha e isso atrapalha até mesmo na hora de procurar ajuda de um profissional, por medo de possíveis julgamentos. E isso se aplica também para quem tem dificuldade em ganhar peso.
Somos condicionados inconscientemente, a vida inteira, a olharmos para os nossos corpos de forma predominantemente negativa, frequentemente nos comparando a uma outra pessoa, que sempre tem algo melhor que nós. Não me refiro somente a questão peso, mas a qualquer outra característica externa que não seja considerada “a ideal”. E sem nem perceber nós nos tornarmos escravos das metas que outros criam para nós.
Eu vejo pessoas incríveis, mesmo sendo incríveis, se sentindo inferiorizadas por não pertencerem a um padrão estético. Esse padrão de beleza que é imposto hoje pela sociedade é desumano e só serve mesmo para categorizar pessoas. Precisamos sair dessa crueldade coletiva de atribuir beleza a uma só forma, quando na verdade a beleza está justamente na diferença das formas. Somos semelhantes, mas não iguais. Cada pessoa carrega uma genética, uma rotina, um hábito, um poder aquisitivo, objetivos diferentes. São variáveis infinitas, portanto, não faz sentido olhar somente para a ponta do iceberg. Não faz sentido, mas nós tendemos a olhar para a ponta do iceberg quando dizemos: “Nossa como você emagreceu, está linda.” Por favor, não use a magreza como elogio, porque não é. Assim como o gordo não é um xingamento. São apenas características. Magreza não é sinônimo de saúde, assim como ser gordo não é sinônimo de doença.
Você vai aprender a amar suas cicatrizes, a textura do seu cabelo, a sua pele, a sua altura, o seu peso, quando você entender que o seu verdadeiro valor não está na sua imagem. Você é uma soma de outras características muito mais importantes que sua aparência. Sendo assim, olhe para o seu corpo de forma positiva e gentil. Tenha consciência que ele vai a mudar ao longo do tempo e que não há problema nisso. A única coisa que você deve se preocupar é com a sua saúde. E sua saúde engloba não só o seu bem-estar físico, mas também seu bem-estar mental e social.
Essa nossa integralidade precisa ser notada. Não adianta você ter o corpo considerado o mais bonito do mundo, se você esquece de cuidar de outros aspectos importantes que também precisam ser cuidados: como a forma que você evolui como pessoa, a forma como se relaciona com o outro, como exerce sua função na sociedade como mãe, pai, filho, profissional, etc. É claro que não é errado uma pessoa cuidar da sua aparência, mas que não se faça isso de maneira exagerada. Ao fazer isso, uma pessoa se prenderá a vazios que não a preenchem de verdade, e cedo ou tarde, essa pessoa vai descobrir que só um corpo não é suficiente para quem também carrega uma alma. E isso também gera frustração, talvez a pior de todas.
É importante você aceitar a sua estrutura física. Isso fará com que você tome consciência das decisões que serão tomadas em relação ao seu próprio corpo. Aceitar seu biótipo, não é se acomodar, não é abrir mão da saúde, pelo contrário, é você apreender que não precisa fazer sacrifícios desnecessários. É você pensar: Eu não preciso ser magra assim, eu não preciso ser malhado assim. E posso ser saudável e feliz do jeitinho que eu sou!
Quando quiser mudar algo em você, mude quando se sentir mais confortável para mudar. Não mude para agradar ninguém, não se torne escravo das metas que as outras pessoas criaram para você. Priorize sua saúde e sempre procure um profissional para te ajudar. Lembre-se que toda mudança é um processo. Se ainda não te disseram, eu te digo: Você pode ser incrível, independentemente do corpo que habitar.