27/01/2026
Na prática clínica obstétrica, existe uma “zona de turbulência” que todos tememos: a janela entre 26 e 32 semanas. É o momento em que vemos a transição abrupta de uma gestação aparentemente estável para quadros dramáticos de Restrição de Crescimento Fetal (RCF/CIUR), centralização de fluxo e Pré-Eclâmpsia grave/Sindrome HELLP.
Mas por que exatamente agora?
A resposta não é o acaso!!!… É um fenômeno bioenergético e hemodinâmico preciso.
🧬 Tudo começa lá trás, na primeira onda de invasão trofoblástica. Em pacientes com má adaptação vascular (seja por trombofilia, fatores imunológicos ou genéticos), as artérias espiraladas não sofrem o remodelamento completo. Elas mantêm sua túnica muscular, comportando-se como vasos de alta resistência e baixo fluxo. Até a 24ª semana, isso é “silencioso”. A placenta, mesmo deficiente, consegue suprir um feto pequeno com baixa demanda metabólica. Existe uma Reserva Funcional que mascara o problema.
🧬 Ao entrar na 26ª semana, o feto muda seu padrão de crescimento: sai da fase de hiperplasia e entra na fase de hipertrofia celular exponencial. O ganho ponderal, o desenvolvimento do SNC e a deposição de gordura exigem um aporte de oxigênio que não cresce linearmente… ele explode.
É aqui que ocorre o descompasso…
📈 A Curva de Demanda Fetal sobe verticalmente.
📉 A Curva de Oferta Placentária atinge um platô (teto máximo de perfusão).
E então, a “conta” metabólica não fecha!
🧬 Quando a demanda supera a oferta, a placenta entra em isquemia relativa. O tecido trofoblástico, sob estresse oxidativo, começa a liberar massivamente na circulação materna fatores antiangiogênicos, como o sFlt-1.
O resultado clínico desse mecanismo molecular?
• No Feto: Hipóxia progressiva ➡️ Centralização de fluxo ➡️ Diástole Zero/Reversa (tentativa de sobrevivência em meio à escassez).
• Na Mãe: Endoteliose sistêmica ➡️ Hipertensão, Proteinúria e Consumo de Plaquetas (HELLP)
CONCLUSÃO: A deterioração súbita às 28 semanas não é um evento agudo em um tecido saudável. É a falência aguda de um órgão cronicamente insuficiente.
Entender essa fisiopatologia muda nossa conduta… 👩🏻⚕️