27/01/2026
Eu atendo mulheres médicas. E também atendo mulheres que não tentaram medicina. E, às vezes, são exatamente a mesma mulher. Já ouvi de todas elas a mesma frase, dita de jeitos diferentes: Talvez eu não tenha sido forte o suficiente.
E toda vez que escuto isso, eu penso: forte pra quê, exatamente? Porque o que eu vejo no consultório não é falta de força. É excesso. Excesso de responsabilidade emocional. Excesso de cuidado com o outro. Excesso de medo de decepcionar. Excesso de cobrança silenciosa pra dar conta de tudo e ainda sorrir.
Algumas não passaram na residência. Outras nem tentaram. Mas quase todas carregam a mesma ferida: a sensação de que falharam consigo mesmas. Só que, sendo muito honesta… o que muitas chamam de “falta de foco” eu vejo como foco espalhado demais.
Enquanto você estudava, alguém precisava que a casa funcionasse. Enquanto você pensava em tentar, alguém precisava que você estivesse disponível. Enquanto você decidia, você também cuidava. E ninguém chama isso de trabalho. Ninguém chama isso de esforço.
Mas o corpo chama. A mente chama. A autoestima sente. Homens chegam exaustos pelo estudo. Muitas mulheres chegam exaustas por tudo o que veio junto com ele. Não é sobre capacidade intelectual. Nunca foi. É sobre ter aprendido, desde cedo, que priorizar a si mesma custa caro. Talvez não tenha sido esse ano.
Talvez você ainda esteja tentando. Ou talvez você tenha desistido antes mesmo de tentar e isso também dói. Mas se tem algo que eu queria que você soubesse, como psicóloga e como mulher, é isso: você não é insuficiente.
Você foi treinada para ser indispensável para todo mundo menos para si. E enquanto essa lógica não muda, nenhuma prova é justa.