29/04/2026
Encontrei essas fotografias antigas e foi como abrir uma gaveta guardada dentro da alma.
Ali na primeira foto estava eu, ainda moça, com os filhos pequenos rodeando meus dias e ocupando meus braços. Marco Túlio, abraçado em mim, sem saber que um dia se tornaria homem feito. Naquele tempo, era só meu menino, desses que procuram o colo da mãe como quem procura abrigo do mundo.
Ah, como era bonito aquele tempo.
A vida era apertada, miúda, feita de economias e pequenas renúncias. Os aniversários eram simples, muito simples. E, curiosamente, havia tanto esforço para realizar coisas tão pequenas. Eu precisava convencer, insistir, ajeitar as contas, acalmar preocupações, encontrar caminhos para fazer existir uma comemoração singela — um bolo simples, uma mesa posta com carinho, um instante de alegria para os filhos.
Hoje penso como era estranho precisar lutar tanto por tão pouco… e, ao mesmo tempo, por algo tão cheio de sentido.
Às vezes faltava dinheiro, sobrava preocupação, mas nunca faltou amor na mesa. E amor, quando é verdadeiro, tempera até os dias mais difíceis.
Nós sonhávamos uma vida quieta, quase escondida das vaidades do mundo. Queríamos criar nossos filhos perto das coisas da alma, ensinando respeito, fé, simplicidade e presença. E sem perceber, construíamos riqueza da única que o tempo não rouba.
Hoje vejo a fotografia e quase posso ouvir as vozes daquela casa. O riso correndo pelos cômodos. As crianças pequenas. O cheiro da comida simples. As mãos cansadas de quem lutava muito para sustentar pouco — e, ainda assim, oferecia tudo.
A mesa era simples.
A roupa era simples.
A casa era simples.
Mas o amor… ah, o amor era farto.
E o tempo, esse velho artesão da vida, vai transformando tudo em saudade. Depois, a saudade vira memória. E a memória, quando amadurece dentro da gente, vira oração silenciosa do coração.