11/03/2026
Durante três anos trabalhei num colégio privado que se dizia inclusivo. Entrei cheia de vontade de aprender, de fazer a diferença; e saí pelo meu próprio pé com a certeza de que nunca perdi a vontade de ensinar.
O problema nunca foi a minha paixão pela educação, mas aquilo que o sistema espera que aceitemos e normalizemos em silêncio.
Horas extra? Normal.
Tarefas fora da minha área de formação? Normal.
Ser a única responsável por questões que deveriam ser partilhadas com as famílias e com o próprio sistema? Normal.
E questionar tudo isto? Era ser “ressabiada”. Sim, leram bem.
Na prática, a inclusão é mais discurso do que realidade. Sem acessibilidade e sem adaptações concretas, esta “inclusão” é apenas um conceito bonito no papel; e a frustração cresce quando quem ensina é obrigado/a a carregar sozinho/a este peso.
O número de alunos com necessidades educativas específicas, como TEA, TDAH e outros desafios comportamentais complexos, continua a subir, muitas vezes dentro da mesma turma. E os recursos continuam escassos. Não há professores/as especialistas suficientes, não há apoio suficiente e não existem condições de trabalho dignas e positivamente estimulantes. Pedem-se milagres, mas as instituições não acompanham o que desejam.
Hoje, espera-se que o/a docente seja motivador/a, psicólogo/a, mediador/a, disciplinador/a, assistente social; e que resolva problemas que, na verdade, pertencem também à sociedade, às famílias, às políticas públicas e às estruturas que deveriam apoiar o sistema escolar.
Sou licenciada em Sociologia e estou a terminar o meu mestrado em História, com especialização em História Contemporânea. Hoje estou em Madrid, a estagiar num museu de arte urbana/contemporânea, a partilhar conhecimento e histórias em português, espanhol e inglês; e percebo todos os dias que ensinar nunca deixou de me apaixonar. Conectar pessoas ao conhecimento, criar experiências, inspirar curiosidade, isso continua a ser o meu combustível.
O feedback que tenho recebido só confirma que eu não perdi o amor pelo ensino, só perdi a paciência para aceitar tudo como inevitável.
Ensinar não é nem deve ser um acto de resignação.