28/12/2025
Abomino a palavra “birra”.
Não consigo ficar indiferente quando ouço verbalizar “birra” para definir o sentir de uma criança, de um ser imaturo e vulnerável.
O que significa “birra”? Segundo o dicionário, “birra” é associada a teimosia, capricho, reação exagerada, sem motivo. Uma definição com uma conotação negativa por natureza, elaborada a partir de uma perspetiva social e não científica.
Assim que a criança expressa o seu sentir através do choro, gritos, agitação motora, entre outras formas de comunicar, verbaliza-se automaticamente a palavra “birra” para definir aquilo que são, segundo crenças sociais desajustadas em relação às emoções, comportamentos exagerados, descabidos, desadequados ou até manipuladores.
Isto acontece, na maioria das vezes, sem se tentar compreender o que a criança está a sentir, nem o que poderá estar a pensar e a precisar. O seu sentir e as suas necessidades não são vistos, compreendidos ou validados. São, sim, julgados pela forma como os comunica: através do comportamento.
Mas atenção! Curiosamente, esta palavra ecoa maioritariamente quando as reações emocionais são desagradáveis. As emoções agradáveis têm sempre espaço para serem sentidas e expostas, pois o positivismo é o popular do grupo, o mais aceite e cobiçado.
Quando referem a palavra “birra”, eu respondo que esta palavra surge da dificuldade do adulto em reconhecer e compreender o que está por detrás do comportamento, do desafio em regular-se emocionalmente e em ajudar a criança a fazê-lo, mas, essencialmente, pela incapacidade de ser empático.
Escuto, imensas vezes, afirmações como: “engole o choro”, “não chores”, “vá, já passou”, “que feio estar a fazer birra”, “não quero birras”, “já não tens idade para fazer birra”, “está numa fase tão birrenta”…
É necessário que as crianças sintam.
É necessário que as crianças sejam acolhidas.
É necessário que as crianças sejam compreendidas.
É necessário que as crianças sejam ouvidas.
É necessário que as crianças sejam respeitadas.
Uma criança é muito mais do que o seu comportamento.
Partilha este post com quem precisa de saber que não existe ‘birra’, existe “sentir” ponto final.