27/10/2025
Partilho a minha comunicação de abertura, muito pessoal e cheia de esperança no potencial transformador dos coletivos, nas pessoas e no futuro.
"Boa tarde a todas as pessoas presentes, é com profundo entusiasmo que vos dou as boas-vindas à conferência da primeira edição de Olhares Psicanalíticos sobre saúde mental com o tema “Artificial – Inteligência, Vínculos e Futuro”.
Esta iniciativa organizada no âmbito do Dia Mundial da Saúde Mental, 10 de outubro, teve como principal objetivo a criação espaços na comunidade para aprofundar o conhecimento e a reflexão sobre os problemas de saúde mental. Momentos que fossem em simultâneo uma oportunidade de trazer a Psicanálise para a comunidade, e a comunidade para a discussão.
Não foi privilegiado um determinado tipo de público-alvo, mas sim o encontro entre diferentes públicos e a possibilidade de partilha de olhares e linguagens, contribuindo assim para um pensamento partilhado sobre os desafios à nossa saúde mental, impostos pelos avanços tecnológicos e as atuais condições políticas e sociais. Em conjunto espero que possamos sonhar o futuro, mas sobretudo construí-lo, porque isto é futuro.
Permitam-me falar-vos um pouco de mim, nasci numa pequena aldeia onde o sabor a casa se estendia para além das paredes da casa dos meus pais, as ruas que eram um bocadinho minhas era sítios onde me movia livremente, os cafés eram outras salas de estar além da minha casa, e o campo ou o salão da coletividade eram os meus espaços de brincar que se prolongavam para o outro lado da estrada. A mercearia, que ainda é a mesma desde que me lembro de existir, era a dispensa que os meus pais nunca tiveram e era, aliás ainda é o ponto de encontro de amigos e vizinhas.
Crescer numa aldeia deu-me contexto, aconchego, envolvência. As pessoas conhecem-se, mas já conheciam os meus avós, sabem quem são os meus pais e até sabem as histórias da família.
Também cresci numa família grande, embora eu seja filha única, à minha mãe não faltaram irmãos e irmãs. Como todas as famílias, a minha está cheia de histórias e dramas, mas há um certo sentido de tribo que se impõe acima de tudo. Sabemos do que somos feitos, sabemos o que nos liga e estamos lá quando é preciso.
Fui percebendo com os meus pais que a vida se fazia fazendo coisas com as pessoas e por elas e que isso podia ser prazeroso. Não tardou que eu me juntasse a eles nas suas múltiplas tarefas para mais tarde fazer o movimento de escolher os coletivos e as causas onde iria investir. Juntei-me a movimentos, associações, projetos, aprendi muitas coisas sobre trabalhar em equipa, intervir, organizar. Essas experiências organizaram-me e enriqueceram-me. Vi prazer em fazer coisas em conjunto.
Acredito que tudo isto contribuiu para um certo sentido de pertença, um amor à minha casa que é a minha terra, um orgulho na minha identidade, que é também o lugar de onde venho, os muitos lugares de onde venho. Sou muitas coisas, e sou muitas coisas que f**am na margem, sou ruralidade, sou classe trabalhadora, sou mulher.
Esses lugares da minha história fossam fazendo crescer em mim um apreço especial por pessoas, por grupos de pessoas, há um certo entusiasmo com a ideia de quebrar barreiras e criar pontes, facilitar aproximações, promover momentos de diálogo, de encontro.
Nas várias esferas da minha vida, é um pouco assim que me apresento, desafiante, criativa, conciliadora, de relações humanas e de inquietações constantes que nunca me imobilizam, antes compelem a agir. Quando integrei a Associação Portuguesa de Psicanalise e Psicoterapia Psicanalítica não foi diferente. As coisas entranham-se em nós com tempo e nós podemos também entranhar-nos nelas, fazer parte, construir, transformar.
Há quem se espante por ter abordagem psicanalítica no contexto clínico, eu estou habituada a que se espantem com as minhas convicções, mas muitas vezes isso vem de um lugar de desconhecimento que pode ser desmistif**ado.
A verdade é que a Psicanalise é uma experiência de relação, é um caminho de transformação profundo, onde o que está escondido, o que dói ou o que não foi vivido, pode finalmente ganhar voz, ser pensado, elaborado e transformado numa história que poderá finalmente ser contada. Como refere António Coimbra de Matos, a psicanálise é muito mais do que uma técnica ou uma teoria que considera os aspetos inconscientes do funcionamento humanos, a psicanálise é uma experiência relacional, de escuta, integração e descoberta.
Em psicanalise ou em psicoterapia psicanalítica as pessoas podem sentar-se frente a frente, ou deitar-se no divã, a periodicidade pode ser semanal, mais do que uma vez por semana ou eventualmente quinzenal. Mas há um compromisso, uma consistência, uma regularidade que deve ser cumprida, e compreendida.
A psicanálise é profundidade, é questionamento e é liberdade. Em psicoterapia há uma recusa da pressa, do imediatismo e da superficialidade. E também por essa razão, a psicanalise é hoje resistência.
Não há lugar onde goste mais de estar se não num lugar que se opõe a pressões sobre o ser.
Partilho isto para vos dizer, que estar aqui, é também fruto da minha história, dos caminhos que fui fazendo e das relações que vou criando. Eu gosto de lugares de diversidade, de expansão do pensamento, lugares onde cabe o silêncio, o impasse, a discordância, mas também onde entra a espontaneidade, a liberdade e a curiosidade. Gosto de espaços apropriados pelas pessoas, que sejam delas e para elas. Espaços onde haja lugar para todos e todas, não importando se toda a gente consegue articular as palavras da mesma forma ou se domina os mesmos conceitos. Há uma certa beleza na simplicidade das interações.
É por isso que aqui estamos, a conversa sobre saúde mental não é só para profissionais de saúde, e não deve ser reduzida a momentos que se tornam aulas dadas de um lugar de saber. É preciso partilhar conhecimento científico e ouvir o conhecimento popular, saber o que sentem as pessoas, o que elas temem, o que fazem e o que não querem fazer.
Quando pensei a possibilidade de nos trazer aqui, ninguém me bloqueou, e acreditem que já tive dias em que gostava que alguém o tivesse feito. Mas houve um apoio imediato. Houve muitos contributos e incentivos no processo, as pessoas queriam genuinamente que corresse bem e ao mesmo tempo acreditavam que assim seria. É assim o coletivo, é força e alegria.
E aqui estamos nós. Que possa ser o início de qualquer coisa que não termine hoje, que nos encha de coragem, de força e de esperança para transformar o medo, a dor e a inquietação em sonho, em alegria, em saúde e em futuro.
Para terminar queriam deixar 3 questões para pensar durante a tarde de hoje, as mesmas 3 que me trouxeram a este tema.
Que lugar ocupa a Inteligência Artificial e Novas Tecnologias nas nossas relações e no nosso adoecimento?
O que é a Psicanálise e que lugar ocupa hoje?
Porque incluir o Movimento Associativo no cuidado da nossa saúde mental?
É sobre isso que hoje nos propomos a refletir hoje.
Que possamos resistir, acordar, viver e transformar, em clínica, na comunidade e na vida.
Vamos conectar-nos e desfrutar deste momento.
Que este encontro nos ajude a imaginar, juntos, um futuro mais consciente, mais sensível e verdadeiramente humano.
Muito obrigada.
Rute Correia Azevedo"
25 de Outubro de 2025