09/02/2026
O meu corpo ainda guarda a memória. O peito inchado, deformado e o braço imóvel da hemorragia interna que alastrava. Foram 6 horas à espera de uma cirurgia de urgência.
Momentos potencialmente traumáticos.
Dos quais ficou a recordação, mas não o trauma.
E não ficou porque tive alguém que viu, validou e amparou durante todo o turbilhão e depois.
Há um momento que me marcou especialmente - no dia a seguir a minha irmã entra no quarto do hospital e emociona-se.
Naquele instante eu senti-me vista e acompanhada no tamanho do susto que vivi.
Ali eu vi reconhecida, validada, valorizada toda a dor e medo que tinha sentido, que ainda estava a sentir.
Era real o que eu passei e foi testemunhado por ela. Eu não estava sozinha, nem fisica nem emocionalmente.
E isso facilitou a elaboração interior do que tinha acontecido.
Porque a validação e o amparo oferecem segurança ao nosso sistema interno, permitindo que a dor seja sentida, processada e, aos poucos, reorganizada após o choque.
É esta presença que transforma experiências potencialmente traumáticas em apenas momentos de dor, envoltos em cuidado e amor.
E mesmo quando, por razões diversas, ninguém testemunha compassivamente o acontecimento potencialmente traumático ou logo depois, ainda é possível transformar a forma como o nosso sistema interno guardou essa experiência — e a dor que lá ficou.
Esse é também parte do acompanhamento que faço no Intelier.