Intelier Maria Peixoto

Intelier Maria Peixoto Perdas| Doença |Finitude
Acolhimento, compreensão e autodeterminação em momentos de dor e fragilidade

O meu corpo ainda guarda a memória. O peito inchado, deformado e o braço imóvel da hemorragia interna que alastrava. For...
09/02/2026

O meu corpo ainda guarda a memória. O peito inchado, deformado e o braço imóvel da hemorragia interna que alastrava. Foram 6 horas à espera de uma cirurgia de urgência.

Momentos potencialmente traumáticos.
Dos quais ficou a recordação, mas não o trauma.

E não ficou porque tive alguém que viu, validou e amparou durante todo o turbilhão e depois.

Há um momento que me marcou especialmente - no dia a seguir a minha irmã entra no quarto do hospital e emociona-se.

Naquele instante eu senti-me vista e acompanhada no tamanho do susto que vivi.
Ali eu vi reconhecida, validada, valorizada toda a dor e medo que tinha sentido, que ainda estava a sentir.
Era real o que eu passei e foi testemunhado por ela. Eu não estava sozinha, nem fisica nem emocionalmente.

E isso facilitou a elaboração interior do que tinha acontecido.

Porque a validação e o amparo oferecem segurança ao nosso sistema interno, permitindo que a dor seja sentida, processada e, aos poucos, reorganizada após o choque.

É esta presença que transforma experiências potencialmente traumáticas em apenas momentos de dor, envoltos em cuidado e amor.

E mesmo quando, por razões diversas, ninguém testemunha compassivamente o acontecimento potencialmente traumático ou logo depois, ainda é possível transformar a forma como o nosso sistema interno guardou essa experiência — e a dor que lá ficou.

Esse é também parte do acompanhamento que faço no Intelier.

Falamos muito sobre práticas de autorregulação emocional que, claro, são válidas e cumprem uma função importante. Mas, d...
03/02/2026

Falamos muito sobre práticas de autorregulação emocional que, claro, são válidas e cumprem uma função importante.

Mas, diante de situações duras - como uma doença grave, o fim de vida ou o luto - muitas vezes elas são simplesmente insuficientes. E isso não significa que estejamos a falhar.

O problema não está em nós. Está na ideia de que é suposto conseguirmos tudo sozinhos, quando o nosso sistema nervoso está programado para se regular em comunidade e interdependência.

Mesmo na idade adulta continuamos a precisar de co-regulação. Continuamos a precisar de alguém que seja porto seguro, que testemunhe e ampare a nossa dor, as nossas perdas, os nossos medos.

Relações verdadeiramente seguras ajudam o cérebro a reorganizar-se depois de diagnósticos avassaladores, de tratamentos exaustivos, de perdas sucessivas.
Ajudam a acalmar, conectar, a reflectir e decidir.

Colocar todo o peso da regulação emocional na capacidade de nos regularmos sozinhos é um reflexo da sociedade hiper independente em que vivemos. Onde a narrativa da autossuficiência nos desconecta da forma como como, biologicamente, fomos feitos para funcionar.

Precisamos de uma comunidade capaz de acolher compassivamente tudo o que a doença grave, o fim de vida e o luto trazem. Porque a ausência dessa rede de apoio tem um impacto significativo no nosso bem-estar emocional.

Olá, eu sou a Maria. Sou Psicóloga desde 2009 mas criei o Intelier depois de um processo oncológico que me fez encarar e...
03/02/2026

Olá, eu sou a Maria.

Sou Psicóloga desde 2009 mas criei o Intelier depois de um processo oncológico que me fez encarar e aprofundar a minha relação com a doença, com as perdas e com a mortalidade.

Percebi na pele a necessidade de espaços não clínicos para acolher, sustentar e capacitar o que se vive do lado de dentro destes momentos.

Acredito que as experiências difíceis têm a capacidade de nos transformar. Que podemos vivê-las com vulnerabilidade, integridade e coragem. E que, a par da confusão, da dor, das perdas, pode existir também autodeterminação, crescimento e beleza.

Integrando estes opostos criamos em nós espaço para experienciar a complexidade da vida & acolhermos a sua imperfeição.

Aqui encontras reflexões e partilhas sobre perdas, doença e finitude porque se fala pouco de como podemos atravessar ou acompanhar alguém nos momentos mais crus e vulneráveis.

Se de alguma forma estes temas te tocam ou despertam, então este espaço é para ti. 😊

O Intelier é um espaço para cuidar do que acontece do lado de dentro em momentos de dor, fragilidade e perdas. É um atel...
03/02/2026

O Intelier é um espaço para cuidar do que acontece do lado de dentro em momentos de dor, fragilidade e perdas.

É um atelier de exploração interior onde olhamos para as nossas vivências internas tais como são - não como algo que precisa ser corrigido, mas como algo que precisa de um espaço para ser escutado, visto, compreendido.

Debruçamo-nos sobre a adaptação à doença e às perdas.
Exploramos emoções intensas ou contraditórias, mudanças indesejadas, decisões complexas e conversas difíceis.
Aprofundamos inquietações relacionadas com o sentido da vida, a incerteza, a finitude e o sofrimento.

Tanto para quem atravessa a doença, a perda ou a finitude na primeira pessoa, como para quem cuida ou acompanha alguém próximo nestes processos.

O propósito é o de acolher e sustentar as experiências difíceis.
É o de ser suporte, segurança e estrutura a partir da qual a pessoa pode aceder ao que precisa para atravessar melhor a situação com que se depara.

Porque é possível encontrar compreensão, direção e autodeterminação mesmo nos momentos mais duros e vulneráveis.

Face à fragilidade e mortalidade do outro, é comum sentirmo-nos impotentes.Impotentes para mudar o desfecho, impotentes ...
25/08/2025

Face à fragilidade e mortalidade do outro, é comum sentirmo-nos impotentes.
Impotentes para mudar o desfecho, impotentes perante a degradação, a dependência ou o desconforto do outro. Impotentes perante a sua frustração, raiva ou tristeza.

Ninguém nos prepara para testemunhar a morte e quando nos deparamos com ela - sem a podermos corrigir, alterar ou suavizar - percebemos que não temos ferramentas nem recursos. Não sabemos como estar, nem como apoiar. Não sabemos o que é possível fazer.

Mas o que, em qualquer circunstância, podemos fazer é estar presentes. Não apenas de corpo presente, mas verdadeiramente presentes. Não com a intenção de salvar ou mudar a realidade do outro, mas para que se sinta acompanhado na dor - ao invés de sozinho nela.

Não precisamos de ter respostas, não precisamos de ter as palavras 'certas' que vão fazer o outro sentir-se melhor.

A maioria das vezes só precisamos dar-lhe espaço para partilhar o que pensa e o que sente - especialmente as suas dúvidas, medos, raiva, confusão. Só precisamos dar-lhe espaço para o seu processo, ouvindo o que emerge.

Porque ouvir o outro é dar-lhe espaço para existir inteiro. E isso faz com que se sinta visto, apoiado, seguro. Mesmo diante das circunstâncias mais desafiadoras.

É simples e por vezes é muito difícil também. Porque somos humanos e isso mexe connosco - com os medos, dúvidas e assuntos por resolver de quem quer acompanhar e suportar.
Ter apoio para poder ser apoio faz toda a diferença.

Tive uma conversa incrível com a minha avó de 90 anos. Falámos sobre a possibilidade da morte, falámos de arrependimento...
24/08/2025

Tive uma conversa incrível com a minha avó de 90 anos.

Falámos sobre a possibilidade da morte, falámos de arrependimentos na vida, falámos de dores do passado que ainda se fazem presentes.

E eu honrada por ser guardiã desse legado de histórias e aprendizagens.

Lisonjeada por testemunhar e acolher o processo de revisão de vida que estava a ocorrer nela.

E enternecida pela oportunidade de verdadeira conexão e intimidade.

É mesmo bonito o que pode acontecer quando estamos presentes e disponíveis para acolher as conversas difíceis.

Não estive no papel de psicóloga, estive no lugar de neta.
E quando nos despedimos era inegável a leveza que senti nela e impagável a sensação de realização que trouxe comigo.

Estive com uma pessoa que me falou acerca da morte (recente) do pai. Em como foi repentino e como não conseguiu no momen...
17/08/2025

Estive com uma pessoa que me falou acerca da morte (recente) do pai.

Em como foi repentino e como não conseguiu no momento fazer sentido do que estava a acontecer, apesar de todos os sinais que agora, em retrospectiva, reconhece.

Aos poucos percebe como tudo teve o seu lugar - a comunicação dos médicos, o suavizar de uma relação que não foi sempre fácil, os preparativos que o pai fez, o ter deixado de comer e beber, a despedida que, mesmo sem ter consciência no momento, existiu.

Tudo ainda lhe parece meio surreal, mas à medida que vai falando, vai organizando o muito que foi vivido e sentido em pouco tempo.
Vai processando esta vivência dura, olhando-a sobre outros prismas, mais conectada com as subtilezas e mais em paz.
E vai encontrando mais sentido, mais leveza em relação à forma como reagiu, em relação à forma como tudo aconteceu.

A morte e o luto são processos humanos, naturais e universais, mas vivemos numa sociedade despreparada para lidar com eles.
É que, para além do sofrimento em si, dói sermos deixados sozinhos com ele, a sentirmo-nos desamparados e até desadequados.

Existirem espaços onde podemos falar sobre estes temas pode ser profundamente transformador. Espaços onde cabem a tristeza, a dor, a dúvida, a confusão... onde os nossos processos internos são testemunhados e suportados.

15/08/2025

Escrevi sobre a morte.
Foram poucas páginas num livro partilhado com muitos outros profissionais, artistas, escritores... 😊

Uma experiência nova esta de dar (mais) substrato aos meus devaneios poéticos. 😅

"Quando a morte vier, deixa-te atravessar.
Não adianta negar, resistir ou lutar.
Deixa que ela te molde,
Te diga o que falta viver, expressar,
Ou te mostre os que falta simplesmente soltar.

Quando a morte vier, deixa-te atravessar.
Sem te fechares, sem endureceres.
Deixa-te esticar, suavizar, impregnar
Por essa dor que te vai transformar.

Quando a morte vier, deixa-te atravessar."

Perante uma doença grave ou terminal ficamos naturalmente mais dependentes dos outros. Para as tarefas da vida mais comp...
03/08/2025

Perante uma doença grave ou terminal ficamos naturalmente mais dependentes dos outros. Para as tarefas da vida mais complexas e, possívelmente, até para as mais simples.

É dura esta perda de independência, sobretudo quando estamos habituados a prover as nossas necessidades maioritariamente sozinhos e vivemos numa sociedade que valoriza tanto a (hiper?)independência.

Mas mesmo quando estamos menos capazes e mais dependentes é possível mantermos a nossa autonomia - entendendo a autonomia como a liberdade de moldarmos a nossa vida de maneira coerente com as nossas características, vontades e prioridades.

Autonomia neste contexto tem mais a ver com autodeterminação do que com a capacidade de se prover sozinho.

É sobre manter o controlo possível em relação aos ajustes, às mudanças, aos limites que nos permitem viver com dignidade - o que quer que isso seja para cada um.

É sobre tomar decisões que preservem a ligação entre quem somos e quem fomos ou quem queremos ser.

A necessidade de sermos cuidados existe a par da necessidade de mantermos a nossa autonomia e individualidade - com gostos, características e vontades próprias. Precisamos de encontrar formas de sustentar essa ambiguidade, realizando ambas.

Podemos aceitar com humildade a ajuda para o que passamos a necessitar & ao mesmo tempo manter a nossa identidade e agência no que ainda podemos escolher e controlar.

Podemos estar (mais) dependentes, mas não necessariamente subjugados ou desligados de nós.

É uma dinâmica fluída entre um cuidador que sabe apoiar, sem anular &
um doente que sabe receber, sem se perder.

Sou niquenta com as palavras 😅 e não gosto particularmente do título, porque entendo a morte como o fim da vida tal como...
24/07/2025

Sou niquenta com as palavras 😅 e não gosto particularmente do título, porque entendo a morte como o fim da vida tal como a conhecemos. E essa, inegavelmente, existe.

Ainda assim, adorei. Stéphane Allix é um jornalista francês que escreve sobre os 15 anos de investigação que dedicou a compreender a morte, motivado pela morte do irmão às suas mãos no Afeganistão.

É um livro sobre espiritualidade. Aborda, apartir de estudos científicos, da sua experiência pessoal e da investigação do trabalho de diferentes profissionais temas como: experiências de quase morte, lucidez terminal, mediunidade, psicadélicos, percepções extrassensoriais e intuição.

O que todos têm em comum é o facto de
indicarem uma consciência, uma forma de existência para além do corpo e que, por isso, continua após a morte.

Gostei muito da forma lógica, investigativa que o autor aborda estes temas da espiritualidade, conjugando informação de várias áreas e diversos interlocutores e afastando-se da religiosidade e da espiritualidade 'new age'.

Ao mesmo tempo que partilha a sua visão, esclarece também que não existem explicações claras e passíveis de comprovar para estes fenómenos.

Recomendo aos cépticos 😊 e aos curiosos destes temas, porque alarga horizontes e deixa-nos a pensar...! 👌

Endereço

Guimarães

Website

https://mariaalvespeixoto81.wixsite.com/intelier

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