06/03/2026
Durante anos foi promovida a narrativa de que o modelo de Suporte Imediato de Vida (SIV) representaria um salto qualitativo decisivo no sistema de emergência médica pré-hospitalar em Portugal. Contudo, a experiência acumulada no terreno e a análise objetiva do seu funcionamento revelam uma realidade substancialmente menos favorável.
Na prática, uma parte signif**ativa das decisões clínicas continua dependente da autorização do médico regulador do Centro de Orientação de Doentes Urgentes (CODU). Este desenho organizativo traduz-se num sistema excessivamente centralizado, que condiciona a capacidade de decisão das equipas presentes no local da ocorrência e pode introduzir atrasos operacionais precisamente nos momentos em que a rapidez e a autonomia clínica são determinantes para o desfecho do paciente.
Acresce um problema estrutural de sustentabilidade que raramente é assumido de forma clara: o país não dispõe de recursos humanos de enfermagem em número suficiente para sustentar, à escala nacional, o modelo SIV. Trata-se, portanto, de um modelo que aparenta robustez conceptual no plano teórico, mas que enfrenta limitações evidentes de operacionalização e continuidade.
Esta realidade contrasta com a evolução observada na maioria dos sistemas de emergência médica internacionais. Países como o Reino Unido, Canadá, Austrália e os Estados Unidos — bem como vários países europeus — estruturaram há décadas os seus sistemas em torno de paramédicos altamente qualif**ados, com educação e treino de nível superior, protocolos clínicos robustos e autonomia operacional para atuar no terreno. De referir que existem mais países europeus atualmente a migrar de forma muito tímida para o modelo com paramédicos.
Aliás, existe vária documentação de organizações europeias e mundiais com referências expressas aos paramédicos, são assumidos ao mais alto nível.
Não menos importante é a critíca continua aos Paramédicos, mas estão esquecidos que mais de 90% da literatura reconhecida no mundo do EMS é produzida por paramédicos, dirigida a técnicos de emergência médica e a paramédicos - em alguns casos até a médicos. Um número elevado de médicos e enfermeiros que são referências mundiais no EMS, são simultaneamente paramédicos.
Importa sublinhar que esta evolução não resultou de opções corporativas ou ideológicas. Resultou, antes, de decisões fundamentadas em evidência científ**a robusta. A literatura internacional demonstra de forma consistente que equipas compostas por profissionais altamente qualif**ados, com autonomia clínica e protocolos bem definidos, conseguem alcançar resultados clínicos comparáveis — e em muitos contextos superiores — aos modelos excessivamente médico-centrados. Simultaneamente, garantem maior eficiência operacional, maior rapidez de decisão clínica e melhor utilização dos recursos disponíveis.
Perante este enquadramento, torna-se legítimo questionar por que razão Portugal permanece frequentemente refém de debates corporativos e institucionais que desviam a discussão do essencial.
A questão central é apenas uma:
Que modelo serve melhor os pacientes e garante maior eficácia de um verdadeiro serviço médico de emergência?
Defender mais educação e treino, mais competências e maior autonomia clínica no pré-hospitalar não constitui qualquer afronta ou desvalorização de profissões existentes. Pelo contrário, trata-se de afirmar um princípio fundamental de organização dos sistemas de saúde modernos: as respostas assistenciais devem estruturar-se em função da competência técnica, da evidência científ**a e da eficiência operacional — e não da preservação de equilíbrios corporativos.
Persistir na manutenção de modelos organizativos que limitam a capacidade de decisão das equipas no terreno, ignorando a evolução internacional e a evidência disponível, representa um risco claro para a modernização e sustentabilidade do sistema.
A este problema acresce um facto cada vez mais visível: o atraso signif**ativo na prestação de cuidados diferenciados, resultante da necessidade de aguardar pela chegada de meios com capacidade de Suporte Avançado de Vida (SAV). Em muitos cenários críticos — paragem cardiorrespiratória, trauma grave ou acidente vascular cerebral — cada minuto perdido traduz-se em prognósticos mais graves e em vidas potencialmente comprometidas.
É ilusório acreditar que o modelo SIV, por si só, resolverá este problema estrutural. A escassez de profissionais de enfermagem torna altamente improvável a existência de recursos humanos suficientes para assegurar uma cobertura verdadeiramente ef**az de todo o território nacional.
E convém não esquecer uma evidência frequentemente ignorada no desenho das políticas públicas:
Portugal não se resume a Lisboa, Porto, Coimbra, Faro ou Setúbal.
Existe um vasto território — interior, rural e de baixa densidade populacional — onde os tempos de resposta são inevitavelmente mais longos e onde a capacidade de decisão clínica imediata no terreno assume um valor ainda mais crítico.
Em contexto de emergência médica, o que verdadeiramente determina o prognóstico do paciente não é a arquitetura institucional do sistema.
São apenas três fatores:
competência clínica, rapidez de intervenção e capacidade de decisão no terreno.
Os sistemas que compreenderam esta realidade há muito tempo são hoje aqueles que apresentam serviços de emergência médica mais eficientes, mais resilientes e verdadeiramente centrados no paciente.
Portugal não pode continuar a adiar este debate. Porque, em última análise, a criação de um verdadeiro serviço médico de emergência não é uma questão corporativa.
É uma questão de responsabilidade pública e de proteção efetiva da vida humana.