12/03/2026
"Concentrate", dizem vozes na minha cabeça, vozes que existem, que são pessoa e que têm corpo. E que falam, falam, falam e as suas vozes ecoam, ecoa, ecoam, mesmo quando já não estou perto delas. "A escola é importante para ti, precisas de aprender". E eu tento, eu juro que tento. Mas sento-me e os colegas começam a falar e eu recordo-me de quando todos os meus irmãos gritavam à volta da mesa, junto com os primos e com outras crianças que estavam na casa, sem que nenhum adulto nos ajudasse no pequeno-almoço, ou sem que houvesse comida para todos. Esforço-me por olhar para a professora, mas de repente ela zanga-se com um colega e a minha cabeça começa logo a tentar perceber se esta zanga vai ser só gritar, se vai ser bater ou se é preciso eu fugir. Tento decorar as letras que estão no quadro. A de águia, B de barro, C de cão, mas para mim era mais fácil que fosse A de agarrar, B de bater, C de comida. Querem que eu me esforce. Que aprenda. Que o meu corpo seja capaz de apreender da mesma maneira que os meus colegas. Mas o meu corpo sempre aprendeu coisas diferentes. Aprendeu a proteger-se, aprendeu a esconder-se, aprendeu a fugir. Aprendeu onde encontrar comida facilmente ou como fazer barulhos ou palhaçadas quando o meu irmão se assustava com os berros. A minha linguagem é outra e na sala de aula não a compreendem. Não é que eu não tenha aprendido a falar, é que aprendi por outros símbolos, signos e signif**ados. Eu bem que quero que o que me dizem fique na cabeça, porque se me dizem tanto que é importante deve ser. Mas a minha cabeça está cheia de muitas outras coisas. Que me preocupam, que me inquietam e que incomodam tanto os adultos. Por isso mexo-me. Salto, balanceio, tremo, levanto-me e escondo-me. Porque o meu corpo sempre aprendeu que precisa de movimento para sobreviver. Eu quero fazer diferente. Eu quero fazer melhor. Mas preciso muito que também compreendam a minha história e que vejam, mesmo com olhos de ver, tudo o que eu já aprendi com ela.