29/01/2026
A autoexigência é muitas vezes confundida com motivação, responsabilidade ou ambição saudável. Mas, quando se torna rígida, constante e internamente punitiva, deixa de ser motor — e passa a ser fonte de ansiedade.
A ansiedade associada à autoexigência não nasce do mundo externo. Nasce da relação que a pessoa estabelece consigo mesma.
O que é, afinal, a autoexigência excessiva?
Do ponto de vista psicológico, a autoexigência excessiva está ligada ao perfeccionismo mal-adaptativo — uma forma de funcionamento em que o valor pessoal depende do desempenho, da produtividade ou da aprovação externa.
Segundo Paul Hewitt e Gordon Flett (1), investigadores de referência nesta área, este tipo de perfeccionismo está fortemente associado a:
- ansiedade crónica;
- ruminação mental;
- medo de falhar;
- sentimentos persistentes de inadequação.
A pessoa vive num estado interno de “ainda não é suficiente”.
A ansiedade não surge porque a pessoa “pensa demais” ou “não sabe relaxar”. Surge porque o sistema nervoso vive em hipervigilância constante.
Quando existe uma voz interna que exige:
- mais esforço
- mais controlo
- mais resultados
- menos erro,
o corpo interpreta o mundo como um lugar perigoso.
E responde como sabe: ativando o sistema de alerta.
Respiração curta, tensão muscular, fadiga, dificuldade em desligar, insónia — são respostas fisiológicas coerentes com um ambiente interno exigente e pouco compassivo.
Do ponto de vista das Constelações Familiares, a autoexigência excessiva e a ansiedade nem sempre nascem apenas da história individual. Muitas vezes estão ligadas a dinâmicas sistémicas inconscientes: lealdades invisíveis à família, tentativas de compensar sofrimentos antigos ou de “fazer melhor” por quem veio antes.
Quando alguém carrega a sensação de que nunca é suficiente, pode estar, sem saber, a tentar dar sentido a desequilíbrios do sistema familiar — assumindo responsabilidades que não lhe pertencem, ocupando lugares que não são seus ou vivendo sob a crença inconsciente de que relaxar, falhar ou escolher um caminho próprio pode signif**ar deslealdade.
Neste contexto, a ansiedade surge como um sinal do corpo e do sistema: algo está fora do lugar. Não é fraqueza, nem falta de capacidade. É informação. O corpo manifesta aquilo que não foi visto, reconhecido ou integrado no campo familiar.
Trazer consciência a estas dinâmicas — reconhecendo o que é nosso e devolvendo o que não nos pertence — pode aliviar profundamente a pressão interna. A autoexigência começa a abrandar quando deixamos de tentar provar, compensar ou reparar histórias que não começaram conosco.
Porque descansar é tão difícil?
Para pessoas autoexigentes, descansar pode ativar ansiedade, culpa ou sensação de inutilidade.
Não porque não saibam descansar — mas porque o descanso ameaça a identidade construída em torno do “fazer”.
Do ponto de vista neuropsicológico, isto traduz-se numa dificuldade em ativar o sistema parassimpático (associado ao repouso e regeneração).
Não é falta de disciplina.
É um sistema nervoso que não se sente seguro sem controlo.
A saída da ansiedade associada à autoexigência não passa por abandonar objetivos ou ambições.
Passa por transformar a relação interna.
Abordagens baseadas na autocompaixão (Kristin Neff (2)) mostram que tratar-se com humanidade, em vez de crítica, está associado a:
- menor ansiedade
- maior resiliência emocional
- maior estabilidade motivacional
Curiosamente, pessoas mais autocompassivas não são menos responsáveis — são mais sustentáveis.
Práticas como:
- consciência corporal
- respiração reguladora
- Yoga terapêutico
- psicoterapia
- coaching
ajudam a reeducar o sistema nervoso e a criar segurança interna, condição essencial para que a ansiedade diminua.
Falando do coaching de ansiedade e stress este distingue de abordagens focadas apenas no desempenho ou na motivação.
O trabalho não é “fazer mais” nem “ser melhor”, mas compreender os mecanismos internos que mantêm o estado de stress e aprender a regulá-los de forma consciente.
O coaching de ansiedade e stress atua na ponte entre consciência e ação: ajuda a transformar entendimento em escolhas concretas no dia a dia, respeitando os limites do sistema nervoso e promovendo maior equilíbrio interno.
Em vez de reforçar a lógica do “tens de conseguir”, propõe uma pergunta diferente e essencial:
“O que é que o meu sistema precisa agora para sair do modo sobrevivência?”
Esta deslocação — da exigência para a escuta — é muitas vezes o primeiro passo real para reduzir a ansiedade de forma duradoura.
A autoexigência excessiva não é força. É um pedido de segurança.
E a ansiedade não é fraqueza. É inteligência biológica a tentar proteger.
O trabalho não é silenciar a ansiedade, mas escutar o que ela revela sobre a forma como nos tratamos por dentro.
(1) Hewitt, P. L., & Flett, G. L. (1991). Perfectionism in the self and social contexts. Journal of Personality and Social Psychology.
(2) Neff, K. (2011). Self-Compassion: The Proven Power of Being Kind to Yourself. HarperCollins.