05/02/2026
Tenho observado, nas consultas, um padrão que se repete vezes demais para ser ignorado.
Pessoas exaustas de viver na escassez, cansadas de sobreviver mês após mês, entram em negócios duvidosos com a promessa de milhões rápidos.
O discurso é quase sempre o mesmo.
Desta vez é diferente.
Desta vez vai resultar.
E depois… não resulta.
O que vejo a seguir não é só frustração financeira.
É desilusão profunda. Vergonha.
Culpa por ter acreditado.
E um cansaço ainda maior do que o anterior.
Entendo esse impulso.
A pobreza não é apenas falta de dinheiro.
É desgaste mental constante. É viver em modo de alerta.
É tomar decisões sob pressão.
Quando se vive assim durante anos, o pensamento crítico enfraquece e qualquer promessa de saída parece uma tábua de salvação.
O dinheiro, goste-se ou não, tem efeitos reais na vida das pessoas.
Traz acesso à saúde porque permite prevenir, escolher melhor, descansar.
Traz informação porque permite viajar, estudar, contactar com outras culturas e realidades.
E traz também um certo espelho social.
Conviver com pessoas de um nível económico ligeiramente acima obriga, muitas vezes, a ajustar comportamentos, linguagem, hábitos.
Não por vaidade, mas porque ninguém gosta de se sentir deslocado ou diminuído.
Isso pode ser uma porta de saída da ignorância, mas não é garantia de evolução interior.
Há quem confunda dinheiro com consciência, e aí está um erro perigoso.
Há pessoas financeiramente bem-sucedidas profundamente vazias, arrogantes ou espiritualmente pobres.
O dinheiro amplif**a o que já existe.
Não cria carácter, não cria ética, não cria lucidez.
Outro ponto pouco falado é este; a obsessão por enriquecer rapidamente costuma vir de uma relação ferida com o valor pessoal. Quando alguém acredita que só será respeitado, amado ou ouvido se tiver dinheiro, f**a vulnerável a esquemas, gurus e promessas irreais.
Não é ganância.
É dor.
Talvez o verdadeiro trabalho não seja ensinar as pessoas a ganhar milhões, mas a sair do desespero.
A construir estabilidade antes de sonhos grandiosos.
A compreender que riqueza sustentável raramente nasce da urgência e quase nunca do atalho.
Dinheiro pode facilitar a vida. Pode abrir portas.
Pode dar margem de escolha. Mas não substitui consciência, discernimento nem maturidade emocional.
E quando isso falta, mesmo com dinheiro, a queda acaba por chegar.
Só muda o tamanho do tombo.
Adriana Monteiro
́voadevarzim