05/04/2026
A Páscoa, antes de qualquer apropriação comercial, nasce como um marco de travessia, memória, dor, resistência e esperança. Para milhões de pessoas, especialmente em um país como o Brasil, de maioria cristã, esta é uma data profundamente simbólica, ligada à morte e à ressurreição de Jesus Cristo (um homem que viveu entre os pobres, os perseguidos, os marginalizados e aqueles que a sociedade insistia em rejeitar). Mas é importante lembrar: o Brasil é, e deve continuar sendo, um Estado laico. Isso significa que nenhuma fé deve se sobrepor à outra e que toda tradição religiosa, espiritual ou cultural merece respeito, dignidade e liberdade.
Por isso, talvez o maior sentido da Páscoa hoje não esteja em símbolos vazios, nem em gestos automáticos de celebração, mas na coragem de olhar para o sofrimento humano e se perguntar de que lado estamos. Em um mundo atravessado por guerras, desigualdades, perseguições, fome, racismo, LGBTfobia, misoginia e tantas outras violências, celebrar a vida exige compromisso com ela. E isso inclui não fechar os olhos para tragédias como o genocídio do povo palestino, que segue sendo massacrado justamente na terra onde Jesus nasceu, viveu, pregou e foi morto pelo poder político e religioso de seu tempo.
É impossível não reconhecer a contradição de quem celebra a Páscoa em nome de Cristo, mas apoia discursos de ódio, exclusão, violência e desumanização. Se Jesus voltasse hoje como provavelmente voltaria (pobre, racializado, periférico, refugiado, criminalizado e ao lado dos mais vulnerabilizados) muita gente que hoje o louva seria a mesma a rejeitá-lo, persegui-lo e condená-lo novamente.
Que a Páscoa nos convoque menos ao consumo e mais à consciência. Menos à aparência da fé e mais à prática radical da compaixão, da justiça e da defesa inegociável da vida.