30/04/2026
Não é metáfora, é biologia molecular. O fenômeno se chama microquimerismo materno e vem sendo estudado desde os anos 1990, quando exames de DNA começaram a encontrar células geneticamente maternas circulando em adultos de até quarenta e nove anos de idade.
Durante a gestação, a placenta não é a parede impermeável que os livros antigos descreviam. Ela deixa passar células nos dois sentidos. Parte dessas células maternas se instala em tecidos do bebê ainda no utero e permanece ali por décadas. Já foram encontradas no fígado, no timo, na medula óssea, no coração, nos pulmões e até no cérebro.
Elas sobrevivem porque o sistema imunológico do filho, moldado desde o embrião a conviver com elas, aprende a não atacá-las. A amamentação renova essa tolerância. Uma pesquisa publicada em setembro de 2025 pelo Cincinnati Children's Hospital mostrou que um subgrupo muito específico dessas células ensina o sistema imune a reconhecer traços da mãe como parte do próprio corpo.
O detalhe histórico é quase literário. A palavra quimera vem da mitologia grega e descrevia uma criatura feita de partes de animais diferentes costuradas em um único corpo. Foi o nome que a ciência escolheu quando Diana Bianchi, nos Estados Unidos, identificou células masculinas vivas em mulheres que haviam dado à luz filhos homens vinte e sete anos antes. O monstro da mitologia, afinal, era cada ser humano.
Você saiu do corpo da sua mãe no dia em que nasceu. Mas uma parte dela nunca saiu de você.
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