26/05/2025
O MAR DE JOÃO II
Era o ano de 1750. Numa pequena cidade afastada do mundo, vivia um homem de passado nebuloso — João II, filho de João I. Diz-se que João II morreu em 1757, assassinado próximo à escadaria de uma escola, no momento em que tentava recrutar crianças para um projeto jamais esclarecido. Mas os rumores sobre sua morte dividem opiniões. Há quem diga que tudo começou três anos antes, em 1754...
Num dia agitado, João II estava no mar pescando. A bordo de sua embarcação iam com ele trinta e sete crianças, com idades entre 12 e 16 anos. O propósito daquela viagem era, até hoje, tema de debates. João, sob pretexto de ensinar-lhes a arte da pesca, navegava para águas profundas, onde poucos ousavam ir.
Naquela manhã, João II voltou à costa para buscar suprimentos. Enquanto isso, deixara as crianças na embarcação ancorada. Porém, num momento de descuido — talvez uma vela mal apagada, talvez um acidente proposital — a embarcação começou a pegar fogo.
As chamas rapidamente se alastraram. Os gritos das crianças ecoavam pelo horizonte, misturados com o estalar da madeira ardente. Elas lutavam por suas vidas, mas nada podiam fazer. Estavam demasiado longe da terra firme. O mar, impassível, assistia ao espetáculo trágico. Uma a uma, foram engolidas pelo fogo e pela água salgada.
Ao perceber o que havia acontecido, João II fugiu. Escondeu-se nas zonas montanhosas, temendo a vingança dos pais das crianças. A cidade mergulhou em luto e raiva. Os aldeões, indignados, formaram grupos de resgate e caçaram João como se caça um animal. Procuraram pelas crianças no mar durante semanas, talvez por esperança, talvez por despedida.
Foi no segundo mês do ano que os corpos começaram a aparecer. Mas algo estranho foi relatado: os corpos não estavam em estado de decomposição. Ao contrário, pareciam preservados, como se tivessem sido curados pela própria água do mar. A carne, segundo relatos macabros e sussurrados, tinha um cheiro... aprazível. Alguns disseram que era como carne temperada. Outros, em silêncio e vergonha, não negaram ter experimentado.
A partir daí, a vila mudou. O silêncio passou a dominar os almoços de domingo, e o mar já não era visto com os mesmos olhos. Chamaram aquela área de "Mar de João II". Dizem que, quando o sol se põe, é possível ouvir risos distantes vindos das ondas, como se as crianças jamais tivessem partido.
Conclusão:
Em 1757, João II foi finalmente encontrado. Diz-se que um dos pais das crianças o viu à beira da montanha, murmurando palavras estranhas para o mar. Foi morto ali mesmo, perto da escadaria da velha escola — o local onde tudo havia começado.
Mas a história não termina aí.
De tempos em tempos, uma embarcação desaparece nas redondezas. E quando retorna... os tripulantes parecem outros. Seus olhos são opacos, e suas palavras, desconexas. Alguns acreditam que João II jamais morreu — que sua alma foi tragada pelo mar, junto com as das crianças.
E que ele ainda recruta.