Ricardo Castanheira

Ricardo Castanheira Este é um espaço de opinião e liberdade individuais que apenas a mim obriga e responsabiliza.

NUNCA FOI FÁCIL!E se fosse, não era para nós! Sendo o academismo um estado de alma – que o distingue do mero clubismo – ...
11/05/2026

NUNCA FOI FÁCIL!

E se fosse, não era para nós! Sendo o academismo um estado de alma – que o distingue do mero clubismo – o sofrimento é uma constante. Próprio das paixões intensas, como a Briosa.

Este ano não foge à regra e cá estamos, uma vez mais, naquele impasse do vai-não-vai. Tem havido de tudo, como neste fim de semana: recuperar de uma desvantagem de três golos, enfrentar arbitragens tendenciosas e a espera (em vão) pela escorregadela alheia.

Mas esta tem sido uma época desportiva com notas especiais: recordes de assistência em Coimbra e magotes de gente a acompanhar a Académica fora de casa; um sentimento de esperança e alegria estampado em caras de gerações mais novas. Há futuro!

Afinal de contas, a Académica de Coimbra é muito mais do que um clube de futebol. É um símbolo histórico da cidade de Coimbra, da tradição universitária e de uma identidade única no panorama desportivo português. Por muito que outros não entendam, a Briosa transporta consigo um legado raro de cultura, pensamento crítico e paixão, sendo recordada por gerações de adeptos espalhados pelos quatro cantos do mundo.

A indispensável subida de divisão representa, por isso, muito mais do que um sucesso desportivo. Significa devolver visibilidade nacional a Coimbra, revitalizar o orgulho coletivo da cidade, atrair mais pessoas ao estádio, dinamizar a economia local e recolocar a Académica no palco onde a sua história exige que esteja. Uma Académica forte é também uma Coimbra mais afirmativa, mais vibrante e mais confiante no seu futuro.

Na última jornada, daqui a uma semana, há um apelo que deve ecoar em cada canto onde exista um academista: é preciso encher o estádio, atingir novo recorde de assistência, e empurrar a equipa do primeiro ao último minuto; os jogadores que entrem em campo conscientes de que carregam décadas de história, memória e esperança. Falta um derradeiro esforço para transformar um sonho coletivo em realidade.

Coimbra exige-o. A Académica merece!

Tivemos os nossos dias preenchidos com músicas para celebrarmos a mais bela das revoluções. Não se consegue imaginar o d...
27/04/2026

Tivemos os nossos dias preenchidos com músicas para celebrarmos a mais bela das revoluções. Não se consegue imaginar o dia 25 de Abril sem música. A liberdade plena faz-se com acordes.

A música não é um mero produto de consumo: é memória, identidade e linguagem emocional universal. Acompanha-nos nos momentos decisivos, estrutura culturas e cria pontes entre gerações. É, por isso, um dos pilares mais profundos da experiência humana.

Neste contexto, voltamos ao tema da ascensão da inteligência artificial na criação musical, pois levanta questões que não podem ser ignoradas. Nunca foi tão fácil produzir, distribuir e consumir música, mas essa abundância traz consigo um risco silencioso: a diluição do valor artístico e a erosão dos direitos dos criadores.

Diariamente ficam disponíveis nas plataformas de streaming centenas de milhares de novas faixas geradas por sistemas de IA treinados com vastos catálogos de obras pré-existentes. O problema central não é a tecnologia em si, mas o modo como tem sido desenvolvida: muitos destes modelos são alimentados por músicas de autores que nunca deram consentimento para tal utilização, nem receberam qualquer compensação por isso.

Acresce um desequilíbrio preocupante. Os criadores humanos não têm acesso aos dados que treinam estes sistemas, nem meios para contestar ou proteger o seu trabalho. No entanto, veem-se confrontados com conteúdos gerados por IA que competem diretamente com as suas obras, frequentemente replicando estilos, estruturas e sensibilidades construídas ao longo de anos de criação.

Se a música é expressão de humanidade, então a sua exploração sem regras claras representa mais do que uma questão económica: é um desafio ético e cultural. Regular este novo ecossistema não é travar a inovação, mas garantir que o futuro da música continua a respeitar quem lhe dá origem.

Em Abril, convém lembrar que as artes são condição para a realização da liberdade, porque permitem ao indivíduo imaginar, expressar e questionar o mundo para além das limitações impostas pela realidade e pelas estruturas de poder.

Infelizmente outro tema colocou Coimbra e a sua Presidente debaixo dos holofotes a semana passada, retirando visibilidad...
13/04/2026

Infelizmente outro tema colocou Coimbra e a sua Presidente debaixo dos holofotes a semana passada, retirando visibilidade e brilho a uma decisão da maior importância: a suspensão parcial do Plano Diretor Municipal.

A deliberação da Câmara Municipal de Coimbra de suspender parcialmente o Plano Diretor Municipal representa um momento estratégico e, sobretudo, corajoso para o futuro da cidade. Num contexto em que muitas autarquias permanecem reféns de instrumentos de planeamento urbano desatualizados, esta opção rompe com a inércia e assume a necessidade de adaptar Coimbra às exigências contemporâneas.

Mais do que um gesto técnico, trata-se de uma decisão política com visão. Ao abrir espaço para novos investimentos e para uma expansão urbana mais flexível, o município dá os primeiros passos para criar condições para dinamizar a economia local, atrair talento e reforçar a competitividade da cidade num contexto nacional cada vez mais exigente.

Particularmente relevante é a oportunidade de reimaginar as margens do Mondego, transformando-as num eixo de centralidade urbana, convivência e inovação. Ao mesmo tempo, a possibilidade de aumentar a oferta de habitação para jovens e classe média responde a um dos maiores desafios atuais: fixar população e evitar a desertificação humana.

Importa sublinhar que esta suspensão parcial não significa ausência de planeamento nem de regras, mas sim uma adaptação aos tempos e às necessidades. Trata-se de um processo que, sendo transparente, deve ser acompanhado e escrutinado no tempo pela população e pelos seus representantes. Essa abertura reforça a legitimidade da decisão e garante que o desenvolvimento futuro será mais equilibrado e participado.

Coimbra tem agora diante de si uma oportunidade rara: iniciar um novo ciclo de crescimento, mais dinâmico, inclusivo e alinhado com estes tempos. Venham daí os projetos concretos, os novos investimentos públicos e privados para que a população possa confirmar a relevância da decisão política ora tomada!

Num tempo dominado por algoritmos, pela velocidade do instantâneo e pela tirania da superficialidade, a cultura e as art...
16/03/2026

Num tempo dominado por algoritmos, pela velocidade do instantâneo e pela tirania da superficialidade, a cultura e as artes tornam-se um dos últimos territórios de resistência e humanismo. A música, a literatura, o cinema e as restantes expressões criativas recordam-nos aquilo que nenhuma máquina consegue plenamente reproduzir: a experiência humana na sua complexidade, fragilidade e beleza.

Num mundo em que os fluxos digitais privilegiam o que é rápido, polarizador e emocionalmente manipulável, as artes convidam ao contrário: à escuta, à reflexão e à empatia. Um romance que nos coloca dentro da vida de outro, uma canção que atravessa fronteiras linguísticas, ou um filme que expõe as contradições da sociedade são exercícios profundos de reconhecimento da dignidade humana.

Não é por acaso que regimes autoritários ou populismos radicais desconfiam da cultura. A cultura cria cidadãos críticos, capazes de imaginar realidades diferentes e de questionar narrativas simplistas. Como escreveu António Lobo Antunes – tão aclamado recentemente – “a cultura assusta muito. É uma coisa apavorante para os ditadores. Um povo que lê nunca será um povo de escravos”.

Num contexto internacional marcado por guerras, tensões geopolíticas e radicalização do discurso público, as artes funcionam como pontes entre povos, memórias e sensibilidades. Os governos cegamente insistem em olhar a cultura como despesa e não como investimento e dessa forma reduzem-na a coisa pública, tutelada e controlada. Um erro intencional!

As indústrias criativas desempenham também um papel económico e social fundamental. Para além de gerarem emprego e inovação, estruturam ecossistemas de pensamento e criação que alimentam a diversidade cultural e a liberdade de expressão.

Defender a cultura hoje não é apenas uma questão estética ou sectorial. É uma escolha civilizacional. Num mundo governado por dados e algoritmos, investir nas artes é afirmar que o futuro não pode prescindir daquilo que nos torna humanos: imaginação, sensibilidade e consciência crítica.

Esse é o caminho. Mais luzes, menos likes.

V.Exa é reconhecidamente um europeísta convicto. Foi um proeminente eurodeputado e manteve até há pouco ligações à “Noss...
02/03/2026

V.Exa é reconhecidamente um europeísta convicto. Foi um proeminente eurodeputado e manteve até há pouco ligações à “Nossa Europa”, uma plataforma de intervenção cívica com foco nas questões europeias.

Apesar da construção europeia ter estado (e mal) afastada do debate eleitoral recente, a verdade é que a votação recebida lhe traz uma legitimidade acrescida para (co)definir a agenda política, dentro dos poderes constitucionais reconhecidos.

Destarte, num mundo marcado por novas guerras – inclusive às portas da Europa – por um novo desenho geo-estratégico, tensões agravadas entre potências mundiais, e pela instrumentalização da energia e do comércio como armas geopolíticas, a União Europeia enfrenta um teste histórico. A resposta não pode ser menos Europa. Tem de ser mais e melhor Europa e isso implica aprofundar o federalismo.

A invasão da Ucrânia pela Rússia mostra-nos os limites de uma arquitetura institucional assente, demasiadas vezes, na unanimidade. Quando cada Estado-Membro dispõe de poder de veto em matérias cruciais, a Europa torna-se lenta, previsível e vulnerável. Num contexto geopolítico volátil, a agilidade é poder.

Aprofundar o federalismo não significa apagar identidades nacionais. Significa partilhar soberania onde ela é mais eficaz quando exercida em conjunto: defesa, segurança energética, política industrial, comércio externo e proteção de fronteiras.

Nenhum Estado europeu, isoladamente, consegue negociar em pé de igualdade com as grandes potências ou garantir autonomia estratégica em setores críticos como semicondutores, energia ou tecnologias verdes. Se dúvidas houver pensemos nas respostas à pandémica “Covid 19”.

V.Exa poderia lançar a discussão – interna e externamente – sobre passos para uma nova Europa. Maior e melhor. A revisão dos Tratados não pode estar fora da mesa. Aprofundar o federalismo é, hoje, menos uma ambição ideológica do que uma necessidade pragmática. S.Exa pode ter uma palavra a dizer.

Senhora Presidente Ana Abrunhosa,A forma diligente, responsável e humana como com a sua equipa tem encarado as recentes ...
16/02/2026

Senhora Presidente Ana Abrunhosa,

A forma diligente, responsável e humana como com a sua equipa tem encarado as recentes cheias do Rio Mondego, agravadas pelos efeitos da tempestade Kristin, tem sido digna de apreço e reconhecimento geral. A justo título!

As marcas profundas que estas semanas deixarão na cidade e região – de perdas humanas a prejuízos colossais em habitações, comércios e equipamentos - são sinais claros da dimensão desta adversidade.

Ainda é o tempo de acudir a quem mais precisa, cuidando de quem sofreu danos de relevo. Contudo, os momentos de crise também devem ser encarados como oportunidades de transformação. Coimbra não deve limitar-se a remendar o que foi destruído. A cidade tem diante de si uma ocasião rara para repensar o seu modelo urbano, sobretudo a respetiva relação com o Rio Mondego e para projetar uma Baixa moderna, resiliente e atrativa.

É a hora de olhar para as margens do rio como um verdadeiro eixo de vida urbana: com zonas pedonais contínuas, ciclovias, espaços verdes adaptados a cheias, áreas de lazer e novas infraestruturas desportivas acessíveis a todos. Uma frente ribeirinha qualificada pode tornar-se o coração pulsante de uma cidade mais sustentável, capaz de atrair residentes, estudantes, turismo e investimento.

A reconstrução da Baixa deve também integrar soluções de adaptação climática: drenagens inteligentes, materiais mais resistentes, requalificação de praças e ruas, e incentivos à habitação permanente. Não basta restaurar fachadas; é preciso devolver vitalidade, segurança e futuro ao centro histórico.

Senhora Presidente, tem diante de si a maior das tarefas: confirmar que Coimbra além de história, tem também talento e muita ambição. O desafio que agora enfrenta pode transformar-se no ponto de partida para uma reforma urbana corajosa e estruturante. Nunca vista em décadas. Que esta reconstrução seja, acima de tudo, um projeto de modernização da cidade – devidamente aberto, transparente e participado – assim como de reconciliação profunda com o seu rio. Nunca esquecendo que é um dos nossos “ex libris”. Apesar destes dias…

A proteção civil nunca aparece entre as prioridades políticas de governos, nem tão pouco (verdade seja dita) no horizont...
02/02/2026

A proteção civil nunca aparece entre as prioridades políticas de governos, nem tão pouco (verdade seja dita) no horizonte de preocupações de cidadãos e eleitores. A saúde, o emprego, a habitação, a segurança social aparecem no topo das preferências. A proteção civil, em Portugal, vem no fundo da tabela.

Talvez não devesse ser assim. Os graves incêndios dos últimos anos e a calamidade (de nome Kristin) destes dias obrigariam a outro tipo de abordagem política.

Afinal de contas, num mundo cada vez mais exposto a fenómenos extremos (das alterações climáticas aos riscos tecnológicos e geopolíticos) a proteção civil deixou de ser uma resposta reativa para se afirmar como um pilar estratégico da segurança coletiva. As melhores práticas internacionais mostram que prevenir é não só mais eficaz como incomparavelmente menos dispendioso do que remediar.

Países como o Japão, a Nova Zelândia ou a Noruega demonstram que a redução do risco de catástrofes começa muito antes da emergência. Planeamento territorial rigoroso, códigos de construção exigentes, sistemas de alerta precoce e investimento contínuo em ciência e dados são fatores decisivos. No Japão, por exemplo, a educação para o risco faz parte do currículo escolar, criando cidadãos preparados e resilientes desde cedo. E nós, em Portugal?..

Outra lição fundamental é a coordenação institucional. Modelos de governação claros, com cadeias de comando bem definidas e exercícios regulares entre forças de segurança, proteção civil, saúde e autarquias, reduzem drasticamente o tempo de resposta e salvam vidas. Cada vez que há problemas começa o “jogo do empurra” e passam-se culpas! A tecnologia é hoje uma aliada central: sensores, satélites, inteligência artificial e comunicação em tempo real permitem antecipar cenários e agir com precisão. E em Portugal? Já não há pachorra para ouvir falar de uma p***a chamada SIRESP…

Mas nenhuma estratégia é eficaz sem o envolvimento da comunidade. As melhores práticas colocam as pessoas no centro: informação transparente, formação, voluntariado e confiança nas instituições. A segurança de pessoas e bens constrói-se com proximidade, não apenas com meios. E, sobretudo, antes da “casa arrombada”!

Num contexto de risco crescente, a escolha é clara: investir na prevenção, na resiliência e na cultura de segurança não é um luxo, é uma responsabilidade pública essencial e um imperativo ético das democracias modernas. Vamos ver o que o governo, autoridades públicas e autarquias aprenderão com o sobressalto calamitoso destes dias!..


Diário As Beiras

Há anos que não pedem balanços, pedem silêncio! 2025, quase a despedir-se, é um deles. Para muitos, incluindo este que v...
22/12/2025

Há anos que não pedem balanços, pedem silêncio! 2025, quase a despedir-se, é um deles. Para muitos, incluindo este que vos escreve, foi marcado por perdas pessoais irreparáveis . Uma Mãe é insubstituível e inesquecível. O vazio das referências afetivas é doloroso e a morte a pior de todas as ausências. Resta-nos a esperança vã de que o tempo resolve ou mitiga.

Como se isso não bastasse, o mundo pareceu conspirar para reforçar a sensação de uma exaustão coletiva. A guerra na Ucrânia prolongou-se sem solução à vista, normalizando a destruição no coração da Europa. No Médio-Oriente, a violência extrema continua a ceifar milhares de vidas inocentes, deixando um rasto de dor que dificilmente caberá em qualquer acordo político. No Sudão, um conflito quase esquecido continuou a produzir fome e deslocados. Parece que em breve teremos guerra até no Mar do Caribe…Ao mesmo tempo, 2025 foi marcado por eventos climáticos extremos (ondas de calor recorde, cheias devastadoras e incêndios) que “os donos disto tudo” continuam a tratar como exceções, mas que apenas confirmam um modelo de desenvolvimento esgotado.

A instabilidade política um pouco por todo o lado, a erosão da confiança nas instituições e a radicalização do discurso público completaram um cenário que nos faz regressar a um passado histórico de muito más memórias.

Ainda assim, mesmo nos anos mais duros, aprende-se. Aprende-se sobre a fragilidade, sobre o valor do tempo, sobre a urgência de cuidar dos outros e de nós próprios. E sobre o valor das pequenas coisas.

Terminar 2025 é, por isso, mais do que virar uma página: é um ato de sobrevivência emocional. Que 2026 chegue com menos ruído e mais propósito, com espaço para reconstruir, reconciliar e realizar. Que traga paz onde hoje há guerra, lucidez onde reina o ódio, e, sobretudo, a possibilidade de voltarmos a acreditar que o futuro pode ser melhor do que o passado recente. Não por ingenuidade, mas por necessidade!

Infelizmente é cada vez mais frequente falar-se de futebol por causa do que se passa fora das “quatro linhas”. E não dev...
08/12/2025

Infelizmente é cada vez mais frequente falar-se de futebol por causa do que se passa fora das “quatro linhas”. E não deveria ser assim. Apesar do Presidente da FIFA já nos ter habituado a polémicas, a semana passada creio ter passado todas as marcas aceitáveis. A criação de um alegado “Prémio da Paz” e a sua entrega inaugural a Donald Trump, pelas mãos de Gianni Infantino, é um episódio que envergonha o desporto mundial e que fere os próprios princípios que a organização diz defender. Não há qualquer justificação plausível, ética ou simbólica para esta distinção. Há apenas perplexidade, indignação e a sensação de que a FIFA decidiu esticar, até ao limite, a elasticidade da pouca credibilidade que lhe resta.

A paz pressupõe cooperação, diálogo, promoção de entendimento entre povos, culturas e nações. Pressupõe também exemplo, responsabilidade e um percurso público coerente com esses valores. Basta um olhar rápido para perceber que nada disso está presente nesta escolha. A figura de Donald Trump, carregada de polémicas, divisões internas e tensões internacionais, está a anos-luz de representar qualquer ideal de pacificação. A decisão da FIFA, ao elevá-lo a símbolo de paz, é um insulto à inteligência coletiva e um perigo para a própria ideia de “fair play”, coisa que Trump já demonstrou não ter!

Gianni Infantino, que já habituou o mundo a decisões erráticas e a uma gestão opaca, vai agora mais longe: tenta apropriar-se da retórica moralizadora para premiar o que é, pura e simplesmente, impossível de defender. Um “Prémio da Paz” que nasce sem critério transparente, sem fundamento reconhecível e sem coerência com os valores universais do futebol, não é um prémio: é propaganda. E propaganda barata.

Aliás, se houvesse coerência e não subserviência da FIFA, o prémio deveria ter sido entregue também à Presidente do México e ao Primeiro-Ministro do Canadá, os outros co-organizadores do Mundial em 2026!

Este episódio deveria servir de alerta e de vergonha. A FIFA não está acima da ética, nem do escrutínio público, nem dos valores que apregoa sempre que lhe convém. Apenas expõe, de forma dolorosamente clara, o quão distante a FIFA está do espírito do desporto que afirma representar.

Há muito que as redes sociais deixaram de ser apenas espaços de convívio ou partilha de ideias para se tornarem verdadei...
27/10/2025

Há muito que as redes sociais deixaram de ser apenas espaços de convívio ou partilha de ideias para se tornarem verdadeiras arenas de combate político. O que deveria ser uma ágora moderna — um espaço para o confronto saudável de opiniões — transformou-se num campo minado de insultos, radicalismos e intolerância. As eleições autárquicas e o projeto legislativo em torno das “burcas” foram disso um exemplo claro.

Mas o problema não está nas redes em si, mas na forma como elas moldam o comportamento humano. Os algoritmos privilegiam o choque, o escândalo e o exagero. A lógica da atenção recompensa quem grita mais alto e quem ofende mais, não quem argumenta melhor. E assim, aos poucos, a razão vai perdendo espaço para a emoção; o diálogo cede lugar ao confronto.

Hoje, a moderação é vista como fraqueza. O equilíbrio, como covardia. A capacidade de ouvir o outro, como traição à própria “tribo” ideológica. Vivemos numa era em que a complexidade é sacrificada em troca de “slogans” e frases de efeito. E o resultado é um empobrecimento profundo do debate público, em que os extremos se alimentam mutuamente enquanto o centro se esvazia.

Esta degradação do discurso tem consequências reais. A polarização digital contamina a política real, endurece posições e mina a confiança nas instituições democráticas. Quando tudo é reduzido a “nós contra eles”, perde-se o espaço da construção comum — e é nesse vazio que o populismo prospera.

Mas há uma responsabilidade individual e coletiva que não pode ser ignorada. Cada partilha impensada, cada comentário inflamado, cada “like” dado à indignação contribui para este ciclo tóxico. Não se trata de silenciar a crítica, mas de recuperar a noção de que o outro não é um inimigo, mas um interlocutor.

O desafio, portanto, é reencontrar o valor da conversa civilizada. Devolver à política — e às redes sociais — o respeito pela diferença. Tolerar não é concordar: é reconhecer o direito do outro a existir e a pensar de forma distinta.

Enquanto persistirmos neste ruído ensurdecedor de certezas absolutas, continuaremos a destruir o que resta do diálogo público. E sem diálogo, a democracia deixa de respirar. Infelizmente é esse o objetivo de alguns!

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