19/02/2026
Na clínica, ele aparece quase sempre na primeira sessão.
“Tô bem.”
Dito com um sorriso leve.
Com postura firme.
Com controle.
Mas o corpo desmente.
A respiração encurta.
Os olhos evitam.
As mãos se apertam.
O “tô bem” muitas vezes não é falsidade.
É defesa.
É um mecanismo aprendido para sobreviver em ambientes onde sentir era perigoso, onde chorar era fraqueza, onde precisar era inconveniente.
Por trás do “tô bem” pode existir:
– medo de ser um peso
– vergonha de não dar conta
– exaustão emocional
– solidão acompanhada
– uma infância onde ninguém perguntava “como você está de verdade?”
O “tô bem” é, muitas vezes, uma estratégia de apego.
Se eu não incomodo, eu não sou abandonado.
Se eu pareço forte, eu sou aceito.
Se eu escondo a dor, eu permaneço pertencendo.
Mas o preço é alto.
Porque quando ninguém vê a dor,
ninguém oferece cuidado.
E quando a dor não encontra linguagem,
ela encontra o corpo.
Estar bem de verdade exige coragem.
Coragem para desmontar a armadura.
Coragem para tolerar a vulnerabilidade.
Coragem para dizer:
“Hoje eu não estou tão bem assim.”
E talvez o verdadeiro cuidado comece quando alguém sustenta o silêncio…
e pergunta de novo:
“Mas… como você está mesmo?”