18/12/2025
A mulher adúltera; o que o Senhor Jesus escreveu na terra?
No último e grande dia da festa (Jo 7,37),
a água foi derramada no chão do templo.
Não era apenas rito.
Era memória antiga respirando no presente,
como se Isaías ainda falasse
por entre as pedras e o sol (Is 12,3).
Então Ele se levantou.
E a Fonte falou com voz humana:
— Se alguém tem sede, venha a mim e beba (Jo 7,37–38).
Alguns beberam.
Outros se afastaram.
E o afastamento, Jeremias já sabia,
não é um passo do corpo,
mas uma ruptura da alma:
abandonar a Fonte
é aprender a ter sede (Jr 2,13).
A festa passou.
Veio o dia do santo ajuntamento (Lv 23,36).
Trouxeram uma mulher (Jo 8,3).
Ela não foi apenas pega em adultério.
Foi exposta.
Era mulher —
e isso bastava para que a culpa fosse dupla
e a vergonha tivesse endereço.
Foi trazida no dia mais santo da festa,
quando o povo celebrava a presença de Deus
no meio dos homens.
No dia da santidade proclamada,
ela carregava a exclusão.
Não tinha nome.
Não tinha defesa.
A Lei a via,
mas não a escutava.
Para eles, estava fora da comunhão,
fora da esperança,
fora do perdão.
Seu destino já estava decidido —
não no céu,
mas nas pedras.
Não a trouxeram por zelo,
mas por dureza.
Não por amor à Lei,
mas para matar em nome dela (Jo 8,6).
Ela havia traído.
Eles também.
Pois quem rejeita a Fonte
já cometeu adultério no coração (cf. Jo 7,48–49).
Jesus não respondeu.
Inclinou-se (Jo 8,6).
O dedo que um dia escreveu em pedra (Ex 31,18)
agora escrevia na terra (Jo 8,6.8).
Não gravava o eterno.
Revelava o passageiro.
O pó recebeu o que o céu não guardaria.
E Jeremias ecoou silencioso no chão do templo:
quem se afasta da Fonte
tem o nome escrito onde o vento apaga (Jr 17,13).
Eles leram.
E ao lerem, caíram por dentro.
Saíram um a um,
começando pelos mais antigos (Jo 8,9),
porque o tempo acumula memórias
que o pó reconhece.
Ficou a mulher (Jo 8,9).
Ficou a misericórdia.
Ficou a Fonte diante do vaso quebrado.
— Nem eu te condeno.
Vai, e não peques mais (Jo 8,11).
O pecado dela revelou os acusadores.
O perdão d’Ele revelou Deus.
Não negou a verdade.
Mas a atravessou com graça.
Porque o Filho do Homem
não veio para condenar,
mas para salvar (cf. Jo 3,17).
A água já havia sido derramada.
O chão já havia sido escrito.
E o vento fez o que sempre faz:
apagou os nomes que pertenciam ao pó (Sl 103,14–16).
Porque há nomes escritos na terra (Jr 17,13)
e nomes guardados no céu (Lc 10,20).
Há palavras que o tempo desfaz
e há Palavra que permanece (Is 40,8). Há nomes escritos no Livro da Vida.
A escrita sumiu.
A Fonte continua (Jo 4,14).
E quem dela bebe
aprende que, antes de lançar pedras,
é preciso lembrar:
também somos pó (Gn 3,19).