04/07/2017
Puerpério
Refletir sobre o puerpério é levar em conta situações que, às vezes, não são nem tão físicas, nem tão visíveis, nem tão concretas, mas que, nem por isso, são menos reais. Em síntese, trata-se do invisível, do submundo feminino,do oculto, do que está mais além do nosso controle, mais além da razão para a
mente lógica. Para falar do puerpério, teremos de inventar palavras ou lhes outorgar um signif**ado transcendental.
Parece-me oportuno considerar o período puerperal como um rito de passagem que dura pelo menos dois anos, ao longo dos quais a mãe compartilha seu campo emocional fusionalmente com o campo emocional do bebê. É a época em que a díade “mãe-bebê” navega no mar de acordo com suas próprias leis: lentas,apaziguadas, silenciosas, redondas, ressonantes e misteriosas. Durante esse processo, o mundo distante f**a ainda mais longe. Essa experiência pode provocar
alterações repentinas de consciência e clarões de intuição. Abre-se um canalatravés do qual fluem forças poderosas, embora sejam inomináveis para a mulherque as percebe.
De fato, após o parto, as mulheres invariavelmente choram desconsoladas se
perguntando: “Quem sou?”, “O que está acontecendo comigo?” e “O que eu fiz para
merecer isso?” A certeza de ter enlouquecido para sempre é maior à medida quetenham se identif**ado de maneira radical com os aspectos mais “concretos” da sua personalidade. Isso acontece de maneira especial com as mulheres organizadas,ativas, competentes, pontuais, bem-sucedidas e pensantes. Para culminar, seguindo as regras de caráter intelectual, à medida que tenham
“previsto” com antecipação — mas usando as armas da consciência, do racional edo masculino — o funcionamento do futuro vínculo com o hipotético bebê, o desconcerto é fato desconcertante. Sobretudo nos casos em que participaram seriamente de uma preparação racional para o parto, fizeram os exercícios com toda dedicação, o parto em si foi medianamente satisfatório e tudo levava a crerque a presença do bebê teria um desenvolvimento previsível... O problema para a nova mãe é o de aprender a submergir simultaneamente na imensidão do seu campo emocional, para depois emergir no mundo concreto(trabalho, dinheiro, preocupações cotidianas, outros vínculos), para então voltar à escuridão, em uma dança pouco aceita do ponto de vista social. Mundo racional e
mundo sutil. Identidade e perda de fronteiras. Mulher e mãe. Ação e espera. Decisão e leite.
O puerpério pode ser uma abertura da alma. Um abismo. Uma iniciação. Se as mulheres estiverem dispostas a submergir nas águas de seu eu desconhecido. E se procurarem apoio para a travessia.
Livro: Mulheres visíveis, mães invisíveis. Laura Gutman.