17/12/2020
Jornada de autoconhecimento. Você já escutou essa frase por aí. Eu mesma já a usei, algumas vezes. O duro de chamar o processo de se conhecer de “jornada", é que dá impressão de que será gostoso. De que iremos passear com uma cestinha de piquenique e uma toalha xadrez, cantarolando pelos bosques da vida.⠀
Não será. ⠀
Será um dos trens (em homenagem aos mineiros) mais difíceis que você já fez. Além de descobrir feridas que nem sabia que estavam cobertas, tem a questão da autorresponsabilidade. É aí que o bicho pega. ⠀
Porque embora ninguém tenha culpa dos traumas que sofreu, chega a hora de reconhecer que somos os únicos responsáveis por correr atrás da nossa própria cura. ⠀
Parece injusto, eu sei. Prefiro mil vezes comer pastel de queijo do que limpar uma bagunça que eu não fiz. Mas sabe o que é ainda mais injusto? Espalhar mágoas mal resolvidas mundo a fora. É sangrar em cima de quem não nos feriu. Pessoas que, provavelmente, também estão lidando com dores invisíveis. ⠀
Quem se conhece, quebra ciclos de dor. Solta o bastão da corrida de revezamento, segundos antes de passar a ferida adiante. ⠀
É por isso que o autoconhecimento é uma das salvações da humanidade. Ele checa se a história que contamos na nossa cabeça é real ou se é uma projeção de sentimentos, de feridas não cicatrizadas, de narrativas criadas por proteção. ⠀
Veja que ironia, para se conhecer é preciso manter um distanciamento de si, se observando de fora, com olhos e ouvidos de aprendiz:⠀
O que está por trás dessa minha reação exagerada?⠀
Por que tal atitude/pessoa me incomoda tanto? ⠀
O meu propósito é bonito ou é dor fantasiada?⠀
Dizem por aí que gente feliz não enche o s**o. Mentira. A felicidade é momentânea e coexiste com feridas ocultas. Quem não atrapalha é quem se conhece, quem se observa. Gente que, apesar dos pesares, assume a responsabilidade das dores que carrega e das que espalha.⠀
Gente que já foi vítima, mas que se levanta na escuridão, olhando nos olhos da dor. Gente que, em um processo difícil pra caramba, entre trancos, rasteiras, ajuda e barrancos, não desiste e caminha para acender a própria luz. (Autora: Rafaela Carvalho) ́gico ̧aterapia