20/06/2025
Há dias em que a vida nos vira de ponta-cabeça, e a antiga lista de tarefas que antes dava algum senso de controle simplesmente perde o sentido. Eu, que sempre encontrei prazer em marcar “check” nas pequenas metas do dia, precisei aprender que a existência não se estrutura por etapas vencidas, mas por atravessamentos. A vida não é sobre cumprir metas. É sobre acolher o que chega inclusive o que chega como perda, ruptura ou silêncio.
E é no inesperado aquilo que Freud chamaria de o retorno do recalcado, ou o real que escapa à nossa fantasia de controle que percebemos que talvez nunca tenha sido sobre destinos. Mas sim sobre jornadas. Trajetórias feitas com as pessoas que estão conosco não por acaso, mas por presença, por vínculo, por ética afetiva.
Se, mesmo diante do caos, você ainda é capaz de enxergar amor e união então é porque escolheu bem o elenco que te cerca. Ou, quem sabe, a vida te presenteou com pessoas que sabem segurar as rédeas sem usá-las para dominar, mas para cuidar.
Epicuro dizia que, para sermos felizes, bastam três coisas: bons amigos, liberdade e reflexão. Talvez ele estivesse certo. Porque mesmo nos períodos mais conturbados, precisamos encontrar um jaule que não é uma gaiola, mas, etimologicamente, vem do persa antigo jāwle e significa um lugar de repouso protegido, de contenção simbólica. Um espaço onde a alma possa descansar sem se esconder.
Não, não sou grata por todas as situações que vivi. Seria uma violência comigo mesma dizer isso. Há dores que eu jamais escolheria. Perdas que me despedaçaram. Mas sou compreensiva ao ponto de saber que a vida não é sobre eliminar problemas. E nem sempre é sobre enfrentá-los. Às vezes, é sobre respeitar. Silenciar. Sentar ao lado daquilo que não pode ser mudado, mas apenas sentido.
E nisso, a psicanálise me ensinou: sobreviver é um ato psíquico. Amar, mesmo sabendo da finitude, é um ato corajoso. E seguir em frente sem negar a dor é, talvez, a forma mais nobre de maturidade emocional que podemos alcançar.